A guerra

Talvez a guerra mais ameaçadora em curso seja aquela que foi benignamente chamada “construção de um movimento para a justiça climática”, em que se distinguiram duas organizações não governamentais, a Climate Action Network e a Climate Justiçe Now, cuja arma principal foi pressionar os governos, baseados na conclusão de que “as crises económica, financeira, e climática, estão intimamente ligadas”. Estávamos a viver as inquietações que animaram a Conferência de Copenhague, que decorreu de 7 a 18 de Dezembro de 2009, no quadro da Convenção da ONU sobre as alterações climáticas. Nessa data, rebuscando conclusões de Nicolas Haeringer, (2011, L’État du Monde) com “a disposição externa à altura das esperanças, a cimeira terminou com um acordo de limitadas ambições, em desacordo completo com os objetivos anunciados. As razões de tal desastre são numerosas, derivadas do confronto geopolítico China/Estados Unidos, à incapacidade da União Europeia falar a uma só voz, ou ainda às exigências dos países do Sul e dos Estados insulares do Pacífico e do Oceano Indico”. Entretanto a ordem mundial foi violada e esquecida em vários domínios, incluindo os conflitos armados, os desastres da natureza, o fim do mito de acabar com a fome no mundo, a islamofobia e a resposta ao terrorismo que mata os inocentes para quebrar a relação de confiança das sociedades civis com os governos, ao mesmo tempo que mistura valores religiosos com objetivos políticos, e recompensas financeiras discretas. Passaram os anos, e a Conferência de Paris, que anuncia o Relatório semanticamente esperançoso do modelo diplomático em uso, não deixa esquecer a questão, capaz de afetar de facto uma útil execução futura, que mantém na opinião pública a afirmada responsabilidade histórica dos países desenvolvidos pelo facto de mais de metade dos países inscritos na ONU serem incapazes de responder aos desafios da natureza, que consideram violada pelos primeiros. Enquanto as culpas ficam à espera da sentença, os combates militares, regulares ou irregulares, cobertos pela legalidade ou ilegais, ajudam irremediavelmente a destruir recursos, a iludir a ambição de um mundo único e casa comum dos homens, como se o peso dos danos infligidos à sustentabilidade do planeta precisasse da colaboração da guerra por toda a parte. É neste clima que o primeiro ministro da Sérvia advertiu fundadamente a OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação Europeia) de que a situação “é um barril de pólvora, e uma única faísca pode incendiar grande parte do globo”, e que Putin ameaça a Turquia com rigorosas sanções, que respondem ao abatimento inútil de um seu avião militar, no meio de uma crise financeira e económica mundial em que os recursos orçamentais podem ser uma preocupação esquecida pelo esforço necessário para mobilizar os instrumentos militares indispensáveis para manter tal decisão a colaborar com a guerra dos deuses contra o próprio planeta. Provavelmente tudo implicará uma multiplicada concorrência de esperançosos estadistas a demonstrarem a sua capacidade diplomática, a invocação de valores que consideram guias, a sustentarem como já foi dito, com experiência histórica, que por vezes a guerra é mais necessária que o amor, mas esperando os povos, que não participam nas decisões cujos efeitos sofrem, que não seja esquecido que os grandes conflitos se desencadeiam por acidentes fúteis. Ou pela lembrada faísca do primeiro ministro da Sérvia que tem razões não muito antigas para legitimar a inquietação. É até de hábito que, incluindo as chancelarias, se ouça pregar contra o conflito, o que ao mesmo tempo anuncia a incapacidade dos responsáveis para evitar o pior. Mas é necessário não exagerar nessa política, em termos de diminuir a capacidade de mobilizar a ação para que a faísca, ou o incidente, não se verifiquem. O risco existe. A medida do risco cresce em proporção com o secretismo da circunstância.