A GUERRA NESTE TEMPO GLOBAL

É impossível tratar da guerra no espaço europeu, especialmente neste tempo breve que são os séculos XX e XXI, ocupando-nos de cada um dos conflitos que enchem a história destes dois séculos. É apenas fragilmente possível tratar de caraterizar os tipos de guerra que se desenvolveram, e para isso tentar fixar conceitos operacionais. Neste caso para verificar a caducidade de alguns, a incerteza de outros quanto aos contornos e motivações, e ainda a diferença de valorações de que o fenómeno da guerra é objeto, de acordo com as circunstâncias. Para tanto começaremos por lembrar alguns conceitos classicamente admitidos pela doutrina e pelos factos.
 
Em primeiro lugar recordar que a guerra é sempre, em qualquer modalidade, um fenómeno de destruição de vidas e patrimónios, com os consequencialismos habituais de cada uma, e que o sempre indispensável Padre António Vieira, recentemente lembrado pelo General Espirito Santo, chamou, por isso, “aquele monstro que se alimenta de sangue, e nunca se sacia”.
 
Por isso mesmo, a ciência procura esclarecer as causas de tal calamidade, procurando um elemento identificador que inclua as variantes, e nesta busca intervêm antropólogos especialmente interessados nos conflitos entre grupos sociais considerados mais primitivos, como se passa em África e passou na América, para acentuarem que não são dominantes as ambições territoriais, mas antes motivos de vingança, deveres religiosos, ou até prestigio.
 
Mas quando especialistas estudam as nossas sociedades consideradas adiantadas no saber, na cultura, e na importância do direito e da ética, inclinam-se para definir a guerra como um “conflito entre Estados com a finalidade de submeter o adversário usando a força armada para assegurar ambições ou reivindicações” (Scruton).
 
Isso não simplifica a caraterização do fenómeno de múltiplas formas, falando-se de rebelião, guerra limitada, guerra fria, guerra ideológica, o que alinha os tipos de guerra com as finalidades: obter a independência, conter o adversário, expansão da conceção do mundo e da vida, ou, motivação menos nobre, retaliação, posse de territórios, domínio das matérias primas, dos mercados de produtos acabados, e assim por diante. Fica sempre a noção geral de conflito entre forças rivais, havendo Estados que em vista do seu comportamento habitual, são classificados como warfare states, isto é, em preparação permanente para as guerras, com ou sem ameaça.
 
De facto, é difícil que, em cada século, não se encontrem variados tipos de guerra, designadamente com protagonismo europeu. Por tal razão apenas é uma ajuda caraterizar os casos de guerra mais típicos destes dois séculos, pelo menos no que se refere ao espaço ocidental, e particularmente europeu. Não tanto pelos conflitos em curso, mas pela soma das memórias ainda inspiradoras de retaliações, pelo ambiente tumultuoso do Mediterrâneo que, entre outras consequências, coloca em suspenso quaisquer projetos da Euráfrica, pelo enfraquecimento que o ambiente global induz na solidariedade da União, pelo aflorar de ambições diretórias pouco respeitadoras de que não sabemos prever os consequencialismos do globalismo ou, em resumo, que se a duas guerras civis europeias do passado próximo foi necessário chamar mundiais, é difícil ter segurança para avaliar as consequências dos riscos em progresso, especialmente pelo uso das armas mais sofisticadas, e da miséria sem qualquer necessidade de adjetivação. O que tudo parece colocar fora de tempo falar especialmente de guerras localizadas porque parece mais urgente e lucido tentar avaliar as consequências de qualquer guerra, seja qual for o seu início e causa do início, no globo casa comum dos homens. Voltando a Aron, que não acreditava na obediência dos Estados poderosos à lei, é evidente que todavia devemos poder fazer compreender, à Rússia, aos EUA, à China, a servir de exemplo, que os poderosos também não podem escapar às consequências da violência que for desencadeada. Mesmo pelos fracos contra os fortes.