GUERRA SEM QUARTEL

Por cada cabeça que Hércules cortava à Hidra, nasciam duas no lugar dela. Para completar a sua tarefa teve a ajuda de Iolau que, queimando com uma tocha o lugar do corte, impedia que novas cabeças nascessem.
Esta cena mitológica tem duas questões relevantes:
O conhecimento do mecanismo da substituição em dobro, das cabeças cortadas teria sido por observação direta. O monstro teria já várias cabeças quando Hércules o abordou, fruto de anteriores tentativas infrutíferas de o aniquilar. E quantas mais tentativas houvesse, maior era o número de cabeças a abater, pelo que ataques não sucedidos fortaleciam-na, no limite, torná-la-iam invencível.
A cauterização do local do corte impedia o renascimento. Havia por isso um tempo crítico. Era necessário que a cicatrização ígnea se consumasse antes que novas cabeças nascessem pois se esta fosse feita fora de tempo seria absolutamente inútil.
A mitologia grega tem, nesta como em muitas outras ocorrências, propriedades preditivas de fenómenos que, milhares de anos depois, reproduzem, muitas vezes de forma dramática, os fenómenos e os conceitos da antiga cultura helénica.
 
A lendária Hidra de Lerna assemelha-se às bactérias que nos causam muitas e várias doenças. O combate a estas ameças constantes tem sido feito, nos últimos tempos, por recurso a anti-bióticos. Acontece que por utilização incorreta, quer no tempo de aplicação quer na duração do mesmo, tal como no velho monstro, por cada batalha incompleta ou inadequadamente efetuada, concedemos ao inimigo a oportunidade de duplicar as suas defesas e estamos agora a braços com bactérias multirresistentes, letais e de combate extremamente complexo e difícil.
Recentemente morreram três doentes em Coimbra vítimas da superbactéria resistente aos antibióticos klebsiella pneumoniae. Há um ano em Gaia houve outras três vítimas mortais.
 
Para percebermos melhor o fenómeno, façamos uma simplificação. Imaginemos que há um número limitado de bactérias num local confinado. Cada dose de antibiótico mata algumas delas (uma cabeça da Hidra). Todos sabemos que os antibióticos devem ser tomados em intervalos regulares ou seja a destruição do novo grupo (outra das cabeças) tem de ser feita antes que o grupo se reforce. Mas, mesmo fazendo isso adequadamente, se não levarmos o combate até final, mesmo que apenas um pequeno grupo de bactérias for deixada estas recuperarão. Se foram as últimas a morrer é porque são as mais resistentes.
Ao multiplicarem-se, facilmente se percebe que ao ocuparem de novo o mesmo espaço, o novo grupo será mais forte e resistente que o incial.
Quando tomamos antibióticos fora de tempo, sem observar as temporizações adequadas e sem levar o tratamento até ao fim, estamos a contribuir para espalhar no espaço onde vivemos, ameaças cada vez mais fortes e de difícil combate que as que encontrámos à partida.
 
Se antes do Hércules, outros guerreiros tivessem enfrentado a Hidra, sem a vencer, esta seria de tal forma grande, forte e aguerrida, teria tantas cabeças que seria impossível ao semi-deus, mesmo ajudado pelo seu sobrinho, levá-la de vencida.
 
Feito que está o mal (as bactérias multiresistentes são já uma realidade e os atuais antibióticos quase nada podem contra elas) e não havendo heróis mitológicos a quem recorrer, resta-nos cumprir rigorosamente as prescrições médicas e dar todo o apoio aos investigadores que, denodadamente, procuram descobrir uma nova geração de medicamentos que nos possam valer!