Há Democracia sem Partidos?

 
Jorge Sampaio, Almeida Santos, Manuel Alegre e Vera Jardim, por ocasião da “colagem” a António Costa nas eleições directas do Partido Socialista, subscreveram e verteram para o apelidado “manifesto dos notáveis” as duas frases mais profundas e arrepiantes do pensamento contemporâneo: “Um partido não existe para si mesmo”. “A prioridade é sempre Portugal”.
Perante estas duas sentenças, que fazem parte de um vasto leque de expedientes que têm por objectivo arrancar o maior número possível de aplausos, e tendo em conta a realidade do nosso país ao longo destes 40 anos de Democracia, estamos perante uma evidência: nem os autores da mensagem nem a quem ela se destina a podem levar a sério.
É precisamente no desfasamento entre as palavras e os actos dos políticos que se explica a atitude radical de muita gente que pensa ser possível haver Democracia sem partidos políticos. Numa perspectiva mais optimista, e ainda que reconheça existirem razões de sobra para a descrença na classe política, porque ela, pelos múltiplos exemplos do dia a dia, nada tem feito para enobrecer a distinta arte de governar a Polis, direi que não é possível a Democracia sem partidos, se esses partidos “existirem para além de si mesmos”, e sempre na perseguição do “interesse nacional”.
Utilizando, por comparação, a metáfora do doente, é importante, para a saúde da Democracia, saber se os partidos – ou quem os representa – têm coragem para admitir que estão doentes. Porque para o sucesso da cura, nada é mais importante do que ao enfermo reconhecer e ter consciência do mal de que padece.
Se pedirmos, de forma aleatória, ao mais modesto e informado dos cidadãos deste país para fazer uma radiografia dos partidos que, após o 25 de Abril de 74, tiveram responsabilidades governativas, não terá certamente dificuldade em assinalar que:
1 – Os partidos têm estado ao serviço dos grandes lóbis, numa clara obediência aos imperativos tribais.
2 – Os partidos têm sido uma permanente fonte de promiscuidade entre a política e os negócios.
3 – Os partidos têm sido o espaço onde, através dos jogos de interesses, do clientelismo, das ligações dos eleitos aos importantes escritórios de advogados, etc., as palavras menos aveludadas encontram e actualizam o seu verdadeiro significado.
Sem os enunciados vazios e de circunstância dos “notáveis” subscritores do dito manifesto, mesmo sabendo que o cenário é pouco abonatório, em termos de imagem, para os políticos, estou convencido que a chave para inverter a tendência, por muito difícil que possa parecer, se encontra na coragem de expulsar, neste e naquele partido, aqueles que, destacando-se pela mediocridade, se eternizam nos partidos (no poder, por arrastamento), não para resolver os problemas do país, mas tão – só com o objectivo de satisfazerem ambições pessoais.
E é à gente boa, séria, honesta e competente (que existe em todos os partidos, desde a esquerda à direita), que compete expurgar o “produto” tóxico. Porque só demarcando-se dos maus (exemplos), pela exclusão, alguém consegue defender a honra e a dignidade, tanto pessoal como partidária.
Se esse for o caminho, nunca o bom senso se prestará a questionar os partidos dentro da Democracia.