HOMENS BONS

 

Desde sempre que na nossa terra, abundaram os homens bons. Gente honesta e trabalhadora e, sobretudo, solidária. Desde o tempo em que o Estado, tal como o conhecemos hoje, não bastava às necessidades que ultrapassavam o comum desfiar dos dias, eram estes homens que assumiam como obrigação promover o bem estar dos seus próximos para além do que eram, num sentido estrito, as suas obrigações profissionais e confessionais. Assumiam, no seu tempo, como parte integrante da sua atividade societária o cuidado que, de forma generosa, graciosa e abnegada, tinham para com os seus semelhantes. Nos tempos em que o SNS nem miragem era e a segurança social pública discriminava a maioria da população rural, eram os homens bons que acudiam aos mais carenciados, de forma individual, de acordo com as suas posses ou, solidariamente, organizando peditórios e outras ações comunitárias que suprissem as desgraças da vida, as doenças inesperadas ou os infortúnios da sorte. Não sendo exclusivos de nenhuma classe ou profissão abrangiam toda a comunidade, desde o jornaleiro disponível a dar uma mão ou ir à torna-jeira para quem precisasse, passando pelo merceeiro e pelo seu rol de fiado e, tantas vezes, pela lista do calote, pelo professor dedicado a todas as crianças e adultos a quem escrevia cartas e guardava segredos, o padre que confortava a alma e por último, mas com enorme importância, o médico que não tinha horas nem oportunidades e tantas vezes nem sequer honorários.

A vida moderna, o primado da lei, os sistemas de segurança social e o serviço nacional de saúde vieram passar para a esfera institucional a boa vontade e o voluntarismo dos bons homens transmontanos. E bem. Os contratos escritos substituem a palavra de honra e o aperto de mão, os hospitais recebem e tratam todos os utentes independentemente dos recursos de cada um e o sistema de assistência no desemprego e velhice são universais. Mas esta realidade não dispensou a generosidade, a bondade e a dedicação de alguns dos nossos conterrâneos.

Mesmo que no tempo que vivemos seja, infelizmente mais vulgar e ser tomado como natural, o aumento da litigância judicial, a tomada de assalto da causa pública por ambiciosos carreiristas políticos, a consagração da dissimulação e do engano como suporte e justificação para carreiras individuais... continuam a povoar as terras nordestinas, alguns homens bons. Talvez em menor número. Talvez mais raros. Mas isso só faz deles mais apreciados e mais valiosos. E maior e mais pesada a perda quando a morte inesperada e brutal resolve ceifar a vida a um deles.

O médico felgarense António José Salgado foi um homem bom.

Que falta que já nos fazes, Tózé!