(I) RESPONSABILIDADES

Que fique claro desde início que o direito a ser socorrido é absolutamente inquestionável. Qualquer cidadão que esteja em risco tem o direito a ser auxiliado por todos os meios disponíveis. Sem quaisquer restrições. Sem quaisquer economias. A proteção civil, os bombeiros e todas as organizações públicas ou privadas, militares, estatais ou da sociedade civil têm o dever de prestar todo o auxílio possível a quem dele precisar.
Contudo interrogo-me se ações voluntárias e voluntariosas que colocam deliberadamente em risco quem as pratica ou quem lhes está próximo, não deveriam ser penalizadas. Porque razão se há-de alguém arrogar no direito de, sobranceira e arrogantemente desrespeitar as normas que estão estabelecidas para serem seguidas por todos os cidadãos sem quaisquer exceções?
Refiro-me ao sucedido no passado mês de Fevereiro em que um grupo de cinco montanhistas se perderam na Serra da Estrela tendo sido necessário a intervenção da GNR que teve de os socorrer. A única mulher do grupo foi transportada para o Hospital da Covilhã. Os militares cumpriram o seu dever, mas já o haviam feito quando, na manhã do dia anterior, tinha desaconselhado o grupo a qualquer atividade “devido ao mau tempo e ao facto de a neve recente estar demasiado macia e dificultar a progressão no terreno”.
Das declarações prestadas na altura ficou a ideia que o aviso fora menosprezado por se considerarem conhecedores e, na sua avaliação,  o risco para que foram alertados era exagerado.
 
Menos de um mês depois, um grupo de nove estudantes não levou em devida conta os avisos e recomendações das autoridades e resolveu ir acampar para as margens  do rio Âncora num vale encaixado entre várias linhas de água que o mau tempo veio isolar colocando em risco a vida dos jovens da Póvoa do Varzim. Foram, e bem, socorridos pelos Bombeiros Municipais de Viana do Castelo. Entrevistados, os aventureiros justificaram a aventura com a tradição: “No próximo ano cá estaremos de novo!”. Haja ou não haja mau tempo. Se o tempo estiver bom não há problema nenhum, mas se as condicionantes atmosféricas se repetirem, lá estará o erário público a suportar os custos de tão insensatas decisões. Querem lá saber!
Repito que o auxílio é devido e mandatório independentemente das permissas e dos pressupostos que estejam a montante. Contudo será justo que os cidadãos cumpridores e acatadores das leis e das recomendações das autoridades sejam sistematicamente chamados a suportar os custos de quem irresponsavelmente as ignora e desrespeita? Terminado o apoio, não seria altura de os penalizar de forma a garantir que a atitude irrefletida não será repetida, de forma inconsciente e leviana? É urgente o cultivo de uma mentalidade de responsabilidade e responsabilizações pelos atos que colocam em risco a própria vida e integridade bem como a dos cidadãos que estoicamente nos protegem e auxiliam.
 
Recentemente, na Comissão de Inquérito sobre o BANIF foi afirmado e repetido que apesar da fragilidade do Banco, a machadada final foi-lhe desferida por uma notícia da TVI sobre a falência iminente. Não sei, nem ninguém poderá garantir que a ausência dessa notícia salvasse a instituição financeira. Mas numa coisa todos concordam – a declaração noticiosa precipitou o fim e causou dano irreparável no BANIF. Prejuízo que acabou por ser suportado por todos nós.
Nós, eu, o leitor e os demais portugueses já fomos convocados a pagar a estrago, sem qualquer possibilidade de contestação, sem que para isso tenhamos contribuído com o que quer que fosse. E quem desencadeou tal furacão, foi penalizado? Acusado? Condicionado, sequer? Nada. Poderá fazer o mesmo em qualquer outra altura. Inacreditavelmente...