Imagens da família: semente, refúgio e saudade

Comemorou-se no passado fim de semana mais um dia da família. Ao menos, a comemoração do seu dia relembra-nos a existência da célula social que está na origem e no desenvolvimento do ser humano, tanto do ponto de vista biológico como do ponto de vista económico como ainda dos pontos de vista social e cultural.
A sociedade existe porque uma família grande se desenvolveu e, depois se foi diferenciando em muitas famílias, até que foi necessária uma estrutura superior, o Estado, para a todas dar guarida, protecção/defesa e organização. Mas, quando o Estado soçobra na sua organização política e económica, lá está de novo a família para receber os filhos e os genros/noras desempregados, a «geração casinha dos pais», nas palavras da música dos Deolinda. E Portugal é mesmo o país da União Europeia onde os filhos abandonam, em média, mais tarde, a casa dos pais, aos 29 anos, assim como já é o país da mesma União com menos crianças até aos 14 anos, apenas 14,6% da população total do país, estimando-se que, em 2050, elas só representem 11,5% (Comissão Europeia, Eurostat, 2015, Ser Jovem na Europa de Hoje).
Também é Portugal o país da União Europeia onde os jovens mais admitem emigrar, numa percentagem que atinge os 70% no conjunto da população jovem dos 18 aos 24 anos (Presidência da República/Fundação Champalimaud, 16/05/2015). Levam como única referência positiva a respectiva família, primeira e única comunidade de afectos, já que o Estado os abandonou para se dedicar à geração mais beneficiária do Estado Social, já que foram os que agora constituem a terceira idade os autores da organização do Estado Democrático pós-abrilista, agora transformado numa indústria de apoio à Terceira Idade, num desincentivo claro do papel da família no apoio e guarda dos mais velhos. Pelo menos assim, a possibilidade de não guardar e não apoiar os mais velhos permitiu resolver a impossibilidade de autonomizar os mais jovens, retendo-os em casa. Mas o processo deve ser o oposto porque, sem o rendimento dos mais jovens, não será possível pagar a guarda e o apoio aos mais velhos.
Não admira por isso que, segundo o mesmo estudo, 57% dos jovens entre os 15 e os 24 anos de idade não se interessem nada por política e que apenas 17,3% considerem que a democracia funciona bem, revelando-se os jovens apáticos e alheios ao espaço público. Pudera: que lhes dá o espaço público a não ser uma promessa de estudar teorias ocas e desligadas da realidade?
A ida para o estrangeiro afigura-se então como solução de futuro para os jovens levando a família como referência e comunidade de afectos, único ela de ligação ao país.
Mas por quanto tempo mais a família poderá constituir esta referência se todas as políticas públicas vão no sentido da sua destruição, proposta pelos primeiros teóricos da Escola de Frankfurt para, sobre a desordem, constituírem um novo totalitarismo, e seguida irracionalmente pelos políticos europeus?
E que teremos nós, depois, se a família já não for nem gérmen, nem refúgio nem saudade?