Justiça: realidade, ou ficção?...

Terminara o depoimento a testemunha arrolada por uma das partes, quando a  julgadora, dirigindo-se à constituinte da parte contrária e oficial do seu mesmo ofício, lhe atira: «Olá, Catarina!». E troca com ela dois amistosos beijos. A prebendada quadrou com um «Olá, senhora doutora!», ensaio, porventura, para salvar a face da desastrada colega. A testemunha, perante cenário tão esclarecedor, sentiu-se ferida nos seus princípios. Atitudes, formas de proceder e gestos como aquele contribuem para fazer jus a certos queixumes e vernáculos soados amiúde nas ruas e praças públicas. Inúmeras figuras impolutas deixaram (e deixam) dignificada a profissão que ervas daninhas vão maltratando. Algumas daquelas sentem-se hoje constrangidas quando, por deveres burocráticos, são perguntadas sobre a profissão exercida enquanto no activo. A Justiça jamais poderá tornar-se mãe ou madrasta, pôr a venda para o real e retirá-la para o inventado, diferenciar cidadãos, ser desrespeitosa e arrogante ou subserviente e submissa, acutilante ou macia, restritiva ou incentivadora de rodas livres, intimidatória ou estimuladora, árbitro de jogos desiguais. Porque, nestes trejeitos continuados, poderá temer-se que Catilinas algumas, abusadoras de paciências, possam vir a ajoujar-se ao que lhes ditarem certas Catarinas, decisões à exacta medida dos interesses respectivos. E o que se passa passa-se como se nada se passasse, campeando imunidade e impunidade  notórias relativamente a desregramentos e desregrantes, o órgão minado incapaz de se desfazer do abcesso que o mina. Da leitura, ainda que aligeirada, dos barómetros sociais sairá inferida a amargura das ruas por que é passeada a Justiça que nos rege, olhada desprestigiada e despida do mérito que lhe deveria caber, por demérito de alguns. E interrogar-nos-emos sobre qual o cenário quando estas gentes forem catapultadas para patamares onde gozem de (ainda) maior poder de decisão. Invariáveis testemunhas de serviço vão fazendo o seu trabalho, no estrito respeito do encomendado. Como se não bastasse, causídicos menos acautelados vão tratando menos bem a lei e a moral, a ética e a deontologia, aprisionados por certos caprichos dos que defendem. Acolhem e subscrevem (e pergunta-se a que título) manobras ridículas, aberrantes, maquiavélicas e sem escrúpulos que as mentes de certos clientes arquitectam e roliçam, menos bem tratados saindo princípios e valores de elevação,  beliscada a sensibilidade de quem destes goza em abundância. Manobras que, conduzidas de má-fé visível a olho nú, deveriam cair, de imediato e por isso mesmo, no cesto dos nado-mortos, de tão grosseiras e grotescas no conteúdo e na forma, objectivadoras somente de despudorada artificialização de circunstâncias e condições, montagem de cenários onde se espelhem prenunciados ganhadores e perdedores. Gesto a acompanhar de correctivo adequado e que se imporia. Ao invés de permitidas e validadas, destarte conferindo-lhes sucesso e, com este, complacência, se não cumplicidade com a barbárie que representam. Permitido, tolerado e acatado, somente o que legítimo for permitir, tolerar e acatar, à luz da lei, do direito e (sobretudo) da moral, para que não se possam gerar decisões extravagantes, ao gosto de quem delas beneficie,  alimentando e fortalecendo a prática de uma justiça que peque por falta dela. 
Escrevo segundo a antiga ortografia