A limpeza do governo

 
Com pompa e circunstância, o governo anunciou a saída da Troica. Saída limpa, limpinha, disse. Então nós havíamos de ser menos que os irlandeses a quem a Sra Merkel impôs a saída clean? Ora o que a Sra Merkel diz é para se cumprir. Por isso, não precisamos de programa cautelar (alguma vez fomos pessoas de cautelas?), não precisamos de mais ajudas, agora somos autossuficientes, autónomos, independentes e muitos outros adjetivos disponíveis nos dicionários. Somos bons. Muito bons. Ou melhor, nós, cidadãos, nem por isso. Os nossos governantes é que são mesmo muito bons. Graças a eles, governantes de qualidade, “Portugal está melhor”, ainda que os portugueses estejam pior, mas por exclusiva culpa deles, portugueses, incompetentes, que não souberam acompanhar o ritmo dos dinâmicos governantes. Estes portugueses, que andaram a viver acima das suas possibilidades e que conduziram o país à bancarrota, são uns ingratos. Em vez de estarem reconhecidos à Troika e aos supercompetentes governantes, que os aliviaram de parte do salário, da pensão ou da reforma (para que é que queriam tanto dinheiro?), ou mesmo do emprego (assim ficam com mais tempo livre, estão a ver?) ou da casa (com este clima tão ameno quem é que precisa de casa?), os portugueses passam a vida a lamentar-se. Uns ingratos, é o que eles são. Então não reconhecem o mérito do governo sobretudo na área das limpezas? Vejam lá se não nos limpou bem os bolsos! Se não limpou a carteira de todos sem exceção. Bem, de todos é um exagero, com a exceção (necessária para confirmar a regra) dos banqueiros e dos ricos que, sendo unha com carne com os mercados, têm de ser bem tratados para zelarem pela boa imagem do País e garantirem as boas vontades dos especuladores, perdão, dos financiadores amigos que nos emprestam dinheiro a baixos juros, ainda que quatro e cinco vezes mais do que eles pagam ao Banco Central Europeu que, como se sabe, não pode emprestar dinheiro aos Estados, só aos bancos que, por usa vez, emprestam aos Estados e assim ganham bem a vida e podem distribuir os prémios de gestão e os dividendos por gestores e acionistas.
Não sejam ingratos, meus amigos. Em vésperas de eleições, os portugueses devem agradecer ao primeiro-ministro todas as promessas que ele lhes fez antes de ser eleito. Em campanha eleitoral como agora. Lembram-se? Disse o então candidato a primeiro-ministro:
“Se formos Governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português.”
“Queremos transferir parte dos sacrifícios que se exigem às famílias e às empresas para o Estado.”
“Vamos ter de cortar em gorduras e de poupar. O Estado vai ter de fazer austeridade, basta de aplicá-la só aos cidadãos.”
“A ideia que se foi gerando de que o PSD vai aumentar o IVA não tem fundamento.”
“A austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte de rendimento”. Etc.
Um primeiro-ministro que prometeu tudo isto e fez o que se sabe não merece toda a nossa confiança? E já se esqueceram dos conselhos dele? Deixem de ser piegas e, se não estão bem, emigrem. Agradeçam, pois, ao primeiro-ministro e ao seu vice são os Desempregados de Portugal, jovens que tiveram de emigrar, pensionistas que têm de optar entre comprar a comida ou os medicamentos, licenciados que ganham 350 euros por mês e todos os que já desistiram de estudar e os que entraram em depressão e se sentem perdidos, agradeçam ao primeiro-ministro e ao seu vice a dedicação e o zelo com que se têm dedicado à tarefa de empobrecimento do País. 
Vivemos hoje pior do que há três anos? É verdade, mas que importância tem isso comparado com a saída da Troica? Saída limpa, limpinha. A Troica sai antes das eleições (um êxito, apregoa o governo, mas as medidas de austeridade vão continuar), vai de férias e regressa em setembro (segundo o DN do passado dia 8 de maio) para “vigiar” o Orçamento. Vigilância que se pode prolongar até 2036. Como veem, saída mais limpa não há..