Lugar de Excelência…

Existem vários sítios de contemplação, de êxtase, onde a natureza esmaga os sentidos, tal a força da largura de vistas, do mistério do cosmos que nos domina. São Leonardo da Galafura em Peso da Régua, Nossa Senhora da Assunção em Vila Flor, Nossa Senhora das Neves no pináculo de Bornes em Alfândega da Fé, Castelo Rodrigo em Figueira de Castelo Rodrigo, Penedo Durão em Freixo de Espada à Cinta são lugares do outro mundo, que busco amiúde quando erro pelo triângulo que me rejuvenesce: Trás-os-Montes, Alto Douro e Beira Alta. Ali, onde mora a brisa, abro os pulmões aos ventos que inebriam, arejo a alma e a mente, desfruto a liberdade que enche a imensidão que estes vales abraçam.
Em todos eles apetece ficar pregado ao chão. Em cada um a pequenez do observador enche o espaço. Podemos tocar no longe, repintar os azuis do céu, contar as nuvens, absorver a luz, sentir o vácuo e a imensidão, encontrar-nos. É impossível não pensar, não questionar, não contemplar, não fazer o encontro saudável do passado com o presente e atingir o futuro. Quando procuro estes locais de superação não preciso de pedir a paragem do tempo pois ele mesmo, o tempo, pára para mim, oferece-me o infinito na ponta do nariz, permite-me viajar dentro dos medos, ao encontro da serenidade. Impossível não sair, dali, em paz.
Viajar por Trás-os-Montes percorrendo os velhos caminhos que guardam meninices, reencontrar as fontes da beira da estrada refrescadoras de pic-nics familiares, as grutas esconderijo e fantasia, os sítios do beijo apaixonado, as árvores que se deixaram fotografar com nossa juventude, os restaurantes fixadores das memórias que se não esquecem, é dádiva generosa destes lugares que povoam imaginários.
Pela força do homem e oferta de Deus emerge, neste momento, entre o gigantesco ondular montanhoso há milhões de anos regurgitado das entranhas do magma, nasce uma colossal massa líquida, a serpenteante bacia das águas do Sabor, do lendário rio, outrora selvagem, domesticado para o bem de todos, lancinante grito contra o esquecimento milenar.
Por aqui, por estes lugares sem som humano, povoado pelos ventos e brisas, pelos chilreares, pelos uivos, pelos cascos das bestas, pelos trovões, pelos sinos, chegou a hora do arranque, do tempo de mãos à obra, da capacidade de surpreender.
Por fim as terras de Torga vão abrir-se ao mundo. A via rápida e o mais famoso túnel português, portas que se abrem para o mais imponente ondular, mar de granito, o Marão, são a chave mestra para o escancarar, para o contacto, para a troca, entre o passado e o actual, entre o litoral, o interior e a Europa.
Para o sítio nasce a oferta e a procura, para os do local a esperança. A partir de agora os transmontanos não terão do que se queixar, o futuro estará em suas mãos, haja vontade.
A mim resta-me procurar. Andarei nos montes, no topo dos caminhos que calcorreei sem conta, adoptarei como epicentro o novo morro de Santo Antão da Barca, freguesia Parada/Sendim da Ribeira em Alfândega da Fé, terei debaixo de olho o monumental espelho de água da serpenteante e tentacular bacia da barragem do Baixo Sabor Montante e, lá nos altos, nos carrapitos, encontrarei o diferente, o pleno, o fascinante, um novo Lugar de Excelência…