A MARAVILHA DO VERBO ENCARNADO

Neste tempo litúrgico pode ser ajuda meditar, reflectir na maravilha do Verbo Encarnado, pois é o Menino que nos nasceu no presépio. Tentar assumir com o coração e com a inteligência a graça do Verbo feito carne no seio da Virgem.

Quando no Credo afirmamos: “Creio em Jesus Cristo”, significa que acreditamos no Verbo do Pai, Encarnado, na segunda Pessoa da Trindade que assumiu a carne humana. Não significa, pois, que acreditamos só no Verbo enquanto Deus, enquanto segunda Pessoa da Trindade, enquanto Filho no seio da Trindade. Mas acreditamos que esse Verbo encarnou, tomou a nossa carne, fez-Se igual a nós, em tudo, excepto no pecado. Cremos que Deus tomou a nossa carne e quis ser homem, cremos que o Verbo habitou entre nós, que é Deus verdadeiro e Homem verdadeiro, que é Pessoa divina, e que tem além da natureza divina, a natureza humana.

Era o Filho Unigénito do Pai, mas ao assumir a nossa carne, tornou-Se nosso irmão pelo poder da sua morte e ressurreição, e ficou a ser o Filho Primogénito, o Filho primeiro, duma fraternidade e irmandade de milhões de homens e mulheres, que n’Ele, são filhos de Deus e seus verdadeiros irmãos. Tudo começou com o mistério, a graça, o dom da Encarnação, em que o Verbo Se fez homem para que nós os homens e mulheres pudéssemos participar da vida divina e sermos “deuses”, pertencermos à família trinitária, sermos, de verdade, irmãos e irmãos de Jesus Cristo, filhos e filhas de Deus Pai.

Ao proclamar que acreditamos em Jesus Cristo, já significa acreditar num Homem, que não brincou com a nossa natureza, que a amou e a assumiu por dentro, que tem um nome concreto, uma família humana, uma terra, um país, uma raça concreta, uma língua, uns costumes, etc. Jesus é o Verbo com carne humana, é o Unigénito do Pai que quis assumir a nossa natureza até às últimas consequências: dor e alegria, fome e sede, tentações e dificuldades, paixão e morte. É este Jesus Cristo que Se tornou o nosso Redentor e Salvador, que é o nosso Libertador, o nosso Amigo, a Fonte da vida, da graça e da salvação, o Senhor da alegria e da felicidade verdadeira. O Verbo assumiu a nossa natureza para nos divinizar, para nos fazer participar da divindade, para que a nossa natureza pudesse ser “integrada” e “mergulhada” no seio da Trindade. 

Deste mistério insondável podemos tirar muitas consequências. Uma delas é concluir o grande valor da vida humana, para Deus a querer assumir. A partir daí nasce para a nossa natureza uma grandeza, uma dignidade, uma maravilhosa realidade. Quanto vale a nossa carne, a nossa natureza, para Deus a querer assumir? Que extraordinária realidade é esta que Deus, o Verbo do Pai, não teve pejo de ser homem, de encarnar? E que valor, que dignidade, que direitos, vêm para a humanidade, através da Encarnação? Temos que reconhecer com humildade mas com audácia, com pobreza mas com determinação, o valor da vida, o nosso “mergulho” na divindade. Daí que tudo o que é atentado à vida do homem e da mulher, da pessoa humana, toma umas proporções desastrosas, criminosas: aborto, eutanásia, mutilações, desumanidades, injustiças, mentiras, fraudes, exploração de pessoas, sobretudo de menores, atentados a qualquer direito humano. Tudo o que impede o homem e a mulher, de serem pessoas humanas equilibradas, amadurecidas, com pão, casa, emprego, liberdade, amor, felicidade, é um atentado contra o projecto divino, é um atentado à grandeza eloquente da humildade da Encarnação e do Presépio. Quanto mais humanos, mais divinos. Quanto mais participantes da divindade, mais humanos, mais homens e mulheres segundo o projecto de Deus.