Marca branca e outras marcas...

Canal televisivo passou imagens de Cristiano Ronaldo disfarçado a fazer magia (e como ele sabe fazê-la...) com uma bola de futebol no centro de Madrid, acompanhado de um cachorro e, de quando em vez, empunhando uma pequena caixa de cartão para a recolha de contributos voluntários daqueles que iam assistindo às diversas cenas do mesmo espectáculo. Propositada, a caracterização (ou descaracterização...) do futebolista não o beneficiava esteticamente, e, porventura por isso mesmo, mau grado a perícia dos seus toques na bola e com ela, nem todos os circunstantes criavam empatia com ele; ao invés, muitos negando-lha, passando um tanto ao largo, não valorizando, ou desvalorizando, o que viam, de soslaio. Outros respondiam, por instantes fugidios e um tanto forçadamente, às solicitações para colaborarem na brincadeira, sem que, por sombras que fosse, se apercebessem de que de brincadeira se tratava. Pura e simplesmente. Alguns ainda, mas poucos, postavam-se, com entusiasmo silencioso e por momentos, junto a si, retomando, logo após, a sua marcha. Quando o futebolista estendia a caixa, em busca de uma moeda a dispensar por parte dos figurantes, estes pouco ou nada correspondiam ao pedido, sendo que, em casos vários, arredavam pé, mais ou menos disfarçadamente. O momento alto aconteceu quando Cristiano Ronaldo, à medida que se desfazia do disfarce, assinava a bola com que se entreteve durante algum tempo com uma criança que não se fez rogada a tocar e trocar a bola com ele, oferecendo-lha de seguida. Nesse instante, foi o entusiasmo, e, retirando-se calmamente Ronaldo, muitos o seguiram.
A magia saída dos pés ou da cabeça de uma personagem anónima, mais ou menos pobremente vestida, fisicamente pouco elegante, não ganhou o poder de cativar seguramente quem a ela assistia. Porém, valor diverso adquiriu quando se verificou que saída do portento maior do futebol. E a magia era, rigorosamente, a mesma... Somente o seu produtor variava. Assim vai a psicologia das massas, conceito que em nada me é agradável. Cativa-nos a marca em (quase) tudo o que adquirimos. Deslumbra-nos o registo traçado pelo produto desejado em matéria de provas dadas de valor (acrescentado) no tecido mercantil. Mais facilmente nos arredamos da marca branca, ainda que, garantidamente, ela nos conduza aos mesmíssimos resultados e efeitos. Até a futilidade tem marca, raramente sendo a futilidade de marca branca...
Escrevo segundo a antiga ortografia.