Matematicamente pensando: Do litoral para o interior

É sempre possível olhar para Portugal a partir de várias perspetivas, existindo perspetivas para todos os gostos, dependendo geralmente do contexto e do observador. Dessas perspetivas saliento a que permite considerar o país dividido em interior e litoral. Sabemos que não existe uma definição clara de interior e de litoral e muito menos uma fronteira vincada entre as duas partes, no entanto podemos considerar como litoral a parte do país próxima da costa, à beira mar, e o interior a parte do país para além da faixa litoral e, consequentemente, afastada do mar.
O problema que se coloca não é existir interior e litoral, mas existirem duas realidades completamente desequilibradas, pelo menos, em termos de desenvolvimento e de densidade populacional. Ao mesmo tempo que o litoral fica cada vez mais densamente povoado, o interior fica cada vez mais desertificado e despovoado. Há muitas décadas que o desenvolvimento e a fixação das pessoas vão no sentido do interior para o litoral, permanecendo um desafio em aberto, principalmente para os decisores políticos que consiste em implementar políticas que permitam fixar as pessoas no interior, com um nível de vida digno e com perspetivas duradoiras de futuro.
No Jornal de Notícias de 10/06/2014, afirma-se “já serão cerca de sete mil os serviços públicos encerrados no interior do país desde o ano 2000. Depois de escolas, unidades de saúde, postos da GNR ou Correios, vão somar-se os Tribunais e as repartições de Finanças” (p. 6). Acrescenta-se ainda que o Estado ao mesmo tempo que apela à fixação das populações, simultaneamente impede-as de acederem às suas instituições, um cenário que acentua o fosso entre interior e litoral e que afasta os cidadãos do Estado.
Encerrar sete mil serviços numa parte do país quase despovoada não contribui para que a situação se inverta, pois para além das pessoas diretamente envolvidas pelos postos de trabalho que ocupavam, existe outro conjunto de pessoas que deixa de ter condições para desempenhar a sua atividade de forma coerente e em condições idênticas às do litoral. Aceito que o país deve ser tratado todo por igual, mas ponho muitas dúvidas que se tenha pensado no conceito de igualdade quando se trata do ser humano e do contexto onde vive.
Se a igualdade consiste em comparar o número de pessoas que utiliza determinado serviço, não é difícil fazer a comparação e nesse caso as instituições do interior ficam a perder porque geralmente atendem diariamente menor número de pessoas. Se a igualdade se prende com a quantidade, diversidade e qualidade dos serviços, então o interior já está a perder e não necessita nem merece que as diferenças se acentuem mais. Assim, é fundamental que o interior possua mais e melhores serviços, não só para garantir algum equilíbrio entre as condições de bem-estar de todos os portugueses, mas também para dar possibilidades reais a quem está farto de viver no litoral poder, em alternativa, vir viver para o interior sem perda de qualidade de vida, contribuindo para uma maior justiça, equilíbrio, e consistência entre o país e as partes que o constituem.