A MENTIRA DELA*

Dois tons de inocência

a bater no mal

são

o paradoxo da mentira.

 

Cravo e lírio lutam

num campo agreste

contra

a vida.

 

Nem cravo nem lírio nem rosas;

Só a semente (ou só se mente?).

 

A poesia é uma actividade de sublimação. Igualmente o são todas as manifestações artísticas, quanto mais não seja porque emprestam sempre algo à ciência e à técnica. A primeira investiga e dá o mote à inovação. A segunda dá corpo ao fruto conseguido pela ciência. Mas a arte colhe a excelência e descodifica com beleza  aquilo que pode não parecer óbvio ao olho humano. A solitária semente remete para a origem, para a essência, para o início da vida, isto tendo em conta que há início. Mas se separarmos a partícula se da forma verbal mente, desdobra-se a dúvida – se mente… Provavelmente, o verbo mentir é o que domina o presente. A VERDADE anda terrivelmente ausente. 

A metáfora da primeira estrofe do poema transporta a crueldade do mal para a mentira. Exemplificando: lindas flores podem despontar até em campos agrestes, porque a natureza é perita em engendrar o impossível. Ou seja, os opostos atraem-se, talvez devido à percepção do infinito, aquilo que a nossa mente não alcança. A mentira dela* reside na ilusão do povo perante os insucessos patentes nas medidas aritméticas previstas, tendo por base inconsistências previamente assumidas e, desde muito cedo, tidas mas iludidas como alcançáveis. O fingimento atinge o limite quando os valores morais e religiosos são postergados e os homens não passam de números. As pessoas espertas são agora astutas, pisam e derrotam os inteligentes.

 O nosso querido país, ingovernável e adiado, deixou de viver segundo as matrizes tradicionais, onde o profundo amor pela pátria é algemado pelos países ricos, agiotas bélicos no passado e agiotas financeiros no presente. Portugal vai quedar-se com idosos, crianças e muitíssimos jovens universais que foram mandados embora. (No horizonte longínquo, vislumbram-se dias de prosperidade? Deus queira que sim!). Era muito melhor agir segundo a VERDADE porque a mentira tem a perna curta e fica a mancar para sempre. Os portugueses já enjoam, manifestam-se por todo o lado, atirando culpas aos espertinhos que, rigorosamente, não elegeram. O que o povo mais agradece é precisamente a VERDADE, entendida esta como HUMILDADE, REALIDADE, PRECISÃO, JUSTEZA. É que o antónimo de HUMILDADE é soberba, orgulho. Onde se dispõem quase todos os políticos? 

 

*crise

 

NB – Antigo acordo ortográfico presente.