Misericórdia

O papa Francisco quis pôr todo o mundo a pensar na misericórdia. Dificilmente poderia ter escolhido um tema mais surpreendente e provocador. A misericórdia é uma substância única, sublime, transcendente, que neste mundo se mostra simultaneamente estranha e natural. Pode dizer-se que o papa Francisco quis pôr todo o mundo a pensar em Deus; porque Deus é misericórdia.
S. João na sua primeira epístola diz que «Deus é amor» (1Jo 4, 8 e 16), mas existem muitos tipos de amor. O amor característico de Deus é a misericórdia. S. Tomás de Aquino explica-o bem:  «Em si mesma, a misericórdia é a maior das virtudes, porque é próprio dela repartir-se com os outros e, o que é mais, socorrer-lhes as deficiências. Isto é muitíssimo próprio do que é superior. Ser misericordioso é próprio de Deus e é pela misericórdia que Ele principalmente manifesta a sua omnipotência» (Summa Theologica II-II 30, 4). Depois explica que para os seres humanos existe uma virtude acima da misericórdia, que é a caridade que nos une em amor a Deus, que nos é superior. «Mas entre todas as virtudes relativas ao próximo, a mais excelente é a misericórdia, e o seu acto é o melhor; pois suprir as deficiências de outrem enquanto tal, é próprio do superior e do melhor» (idem).
Deus é todo misericórdia e todas as suas acções são sempre manifestações da Sua divina misericórdia. Foi por misericórdia que Deus criou o mundo e é por misericórdia que Ele continua a criá-lo e a governá-lo. Até, como diz o Papa, «a justiça de Deus é o seu perdão (cf. Sl 51/50, 11-16).» (Bula Misericordiae Vultus de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, nº 20). Mas a suprema manifestação dessa misericórdia divina é, claro, a redenção de Cristo. Na vida de Jesus tudo é misericórdia divina, desde a Imaculada Conceição da Mãe de Misericórdia, até ao Pentecostes, sublime manifestação da misericórdia. Após a chegada do Espírito, a presença da misericórdia divina no mundo está na vida da Igreja.
Um ano jubilar não é um ano celebrativo. Ele só tem existência se afectar a vida concreta de cada pessoa e comunidade. É dentro do coração que o jubileu acontece. No caso do Jubileu da Misericórdia isso significa duas coisas. Primeiro, uma consciência acrescida que só existimos pela misericórdia divina e que só por ela somos salvos. O mundo é redimido só pela água e sangue do lado de Cristo crucificado. Como dizia S. Bernardo: «O meu mérito está na misericórdia do Senhor. Nunca serei pobre de méritos enquanto Ele for rico de misericórdia.» (Sermo 61 in Cantica 3-5).
Além disso a misericórdia é o guia de todas e cada uma das nossas relações. Esta é a única virtude que tem obras anexas. As catorze obras de misericórdia, sete corporais e sete espirituais, formuladas definitivamente por S. Tomás de Aquno (op. cit. II-II 32, 2) constituem um resumo do que deve ser sempre a nossa presença no mundo. Este ano leva-nos a confrontar todos os dias a nossa vida com essa lista. Pois é pela misericórdia que Deus entra na nossa vida.