Na Hora…

Dizem que o tempo é como a água, não volta atrás, não passa duas vezes por debaixo da mesma ponte. A mente, esse prodígio, permite o impossível, fixa e, a pedido, regressa a datas que já lá vão. As recordações, bem registadas, são de alegrias extasiantes ou de tristezas sufocantes e basta rebobinar, destrancar o filme, fechar os olhos, e eis a tela do passado em todo o esplendor.
Recordo amiúde e intensamente dois episódios pessoais, lá nos tempos de menino e moço: em menino dou comigo, amiúde, no gigantesco recreio da escola-primária, nas brincadeiras de encher o peito, supremo reviver. Regressar ao passado consegue-se num piscar de olhos, na hora.
Em moço, problema ósseo deitou-me na marquesa, uma grande cirurgia. Após primeira injecção de anestesia fiquei inerte, sem respirar, olhos abertos e movimentos coarctados. In extremis alguém me colocou a máscara de oxigénio. Quarenta anos depois sei o que aconteceu, uma anestesia tem dois tempos, primeira injecção adormece, segunda bloqueia os músculos: o anestesista trocou as mãos e, no limite, salvou-me. Foi na hora.
Parece ter sido ontem o desastre de Entre-os-Rios, os gritos ainda se ouvem naquele entroncamento de águas, a nova ponte choca por falta de contexto, é um enxerto, destoa da beleza envolvente. A ponte mesmo, diz-nos que algo trágico por ali aconteceu. Todos ficamos a conhecer, somos óptimos predadores de almas, as vidas dos que as vidas por ali deixaram. Os jornais e televisões entraram-nos por casa adentro, o país viveu, em comunhão, as tristezas familiares dos que por aqui continuam. No entanto a matemática diz-nos que existiu o ultimo carro o que, perante o inferno, conseguiu travar e evitou a queda livre para a eternidade. Foi na hora.
Portugal hoje é a sequência lógica da governação europeia ao arrepio da fraternidade e da igualdade. Lá no reino Merkliano Alemão, nepótico e amnésico, de passado revanchista, ajoelhado perante os vencedores que sabem perdoar, vinga-se pois que é Império Excedentário, de moeda e bens. Alemanha endinheirada, símbolo do poder absoluto, com a ajuda do malfadado G7 e do nosso Durão, conseguiu o impensável, radicalizou as lideranças europeias, as governações nacionais desviaram-se para os extremos, direitos e esquerdos.
Os Portugueses, senhores de História milenar, conhecedores dos mundos e das gentes, votaram ajuizadamente, entre dois pratos opostos e antieuropeus impuseram pêndulo da razão, a esquerda democrática, o Partido Socialista.
E é agora, no epicentro explosivo de uma Europa sem rumo, sem Estadistas à altura, esquecida dos povos, alheia às guerras que atormentam, fechando os olhos à dantesca nuvem de poeira levantada pela colossal marcha de humanos em fuga, é agora que Costa, entrincheirado, tem de estar atento: o BE e o PCP estão à espreita do momento, da antecipação, da altura em que as condições soprarem, para seus lados, melhores votações. Aceitaria de bom grado o castigo de Deus se errado mas, conselho da D.ª Evidência, Costa nunca lhes poderá dar essa chance pois, quando acontecer, estas esquerdas derrubam-no, Na Hora…