Na voragem dos tempos…

Nunca me importei com o regresso. Regressar sempre foi, para mim, aprazível, descansativo, elixir de paz, busco as memórias quando a vida me foge. Quando numa encruzilhada, lugares do diabo e alminhas, grito pelo passado, tento aprender com o legado dos tempos idos, com os senadores, não de Atenas mas do nosso Coliseu.
Quando o cravo vermelho, vermelho sanguíneo, desabrochou erecto, subiu ao altar dos símbolos e, lapidado, encastrou-se como talismã dos oprimidos, dos esquecidos, dos que nasceram malfadados, com estigma de servidão, produtores e criadores das riquezas e bem estar de outros.
Eu, jovem de uns tenros vinte e quatro anos, bebi com sofreguidão a liberdade negada até aí, pulei num imaginário espaço, só meu, sentia os ventos e as brumas de outra forma, encarreirei nas massas, fiz parte dum rebanho, com orgulho e altivez. A barba e cabelo cresceram, as calças varriam o chão com sinos onde meus tristes tornozelos faziam de magros badalos mas o ar, saudoso ar, o meu ar desafiava, sentia-me seguro num mundo de iguais. Imberbe me tornara eu, triste conhecedor de homens.
Fiz-me à vida, andei por outras paragens, no Alentejo profundo, a crescer, a ver crescer crianças do Ciclo Preparatório, a observar o futuro que me entrava pelos olhos adentro. Regressei a Lisboa para virar o rumo, o trilho escolhido seria outro. Como estava no epicentro político, de universidade, labor e social fui-me apercebendo das mudanças: dentro de mim, do povo e do comando, essencialmente do poder politico.
O termo “igualdade” zurzia os ares, nos discursos, nas linhas dos jornais, nas oratórias jornalísticas e nos medíocres discursos dos que ascendiam à Assembleia com gabanços de diferentes dos outros, dos do velho regime.
Observei a ascensão da CGTP, sindicato pau-mandado, com méritos naqueles conturbados tempos, abridor de olhos, mas a evidência demonstrou à exaustão ser braço armado com objectivo cego: domínio com rumo politico imposto.
A amargura invadiu-me as entranhas, tolheu-me o ânimo, esvaziou-me a fé, a utopia foi-se, o cabelo e barba perderam a força, o rebanho tresmalhou, os iguais desapareceram, a solidão apoderou-se das gentes e a igualdade virou miragem definitiva.
Estes últimos quatro anos, de simbiótica fusão entre Governo, Assembleia e Presidência da Republica, unidos-de-facto com a família europeia que encabeça o maior esmagamento histórico dos povos do sul, foram uma rancorosa afronta à Constituição da Republica, ao povo português e a Abril.
Sem dúvida que a esquerda que amo, está na génese do triste momento em que nos encontramos: desiguais, profundamente desiguais. A minha geração, a de Abril, fracassou em toda a linha: lega, aos filhos, desesperança e sufoco.
Agora, com o pastor Costa, temos rebanho em marcha, a pradaria está à vista, basta chegar lá. Chegou a hora do tudo ou nada: a troika que se cuide pois este trio de esquerda vai vencer, terá de vencer, pelo fracasso desaparecerá Na voragem dos tempos…