A Nacional – Boleirice No Seu Melhor

A forte contestação, feita nas ruas, por parte de um número significativo de brasileiros, à organização do mundial de 2014, fez perceber ao mundo que, ao contrário da falsa crença, para os nossos irmãos do lado de lá do Atlântico, o futebol é infimamente menos importante do que os dramas sociais que ali existem. Os manifestantes não aceitam a decisão política do seu pais acolher tão gigantesco e oneroso evento, com o legítimo argumento de nele se gastarem milhões de cruzeiros sem utilidade e sem retorno, quando Dilma Rousseff não consegue (ou não quer) garantir um Estado social decente, escolas e hospitais para os seus concidadãos, não consegue (ou não quer) travar o galopante fosso entre ricos e pobres.
Recuando uma década, apercebemo-nos da diferença de mentalidade que existe entre nós, portugueses, e os brasileiros: a lusa gente não só acolheu com entusiasmo e euforia o Euro 2004, como fez desse evento o grande desígnio nacional. Conclusão: esta e outras patetices do género, que, a partir dos anos 80 do século passado, têm contribuído para o depauperamento do nosso país, e de cujas consequências estamos (quase) todos a pagar, reflectem a superficialidade mental de grande parte da nossa sociedade.
Em contraponto, os de Terras de Vera Cruz, sobre quem recai, falaciosa e injustamente, o mito da “ociosidade”, tendo consciência de que vão sentir na pele, por várias décadas, o resultado de decisões políticas a roçar a indecência, a duas semanas do pontapé de saída do mundial 2014, num inequívoco sinal de inteligência, de sensatez e de quem tem as prioridades bem definidas, prometem lutar contra o inevitável.
Por cá, não sei se por imperativos jornalísticos a que os destinatários não conseguem resistir, ou por autónomo envolvimento emocional dos portugueses, a verdade é que este povo está a tornar-se cada vez menos adepto/crente de Fátima e de fado, e mais fanático pelo futebol. Ambas as hipóteses são válidas, porque os critérios editoriais resultam da vontade dos destinatários do produto jornalístico. Ou seja: um cretino ou um programa de qualidade duvidosa só têm sucesso televisivo, se houver quem lhes garanta e alimente o mediatismo.
Este último mês de Maio foi a prova de que em Portugal se respira futebol, de uma forma doentia e terceiro - mundista. Eu, que gosto muito do desporto – rei, achei que a dose servida pela comunicação social, pelo exagero, me provocou uma sensação de fastio: foi o circo mediático e deprimente criado à volta das meritórias conquistas internas alcançadas pelo Benfica; foi o tratamento circense dado pelos vários canais televisivos (incluindo o público) à final da Liga Europa, dia e noite, durante uma semana – não se prolongando por mais outra, porque o digno representante português foi impedido de festejar a vitória que a justiça do jogo reclamava.
Para completar o ramalhete, eis que surge a final da Liga dos Campeões (realizada em Lisboa) como o verdadeiro teste do algodão: ficou demonstrado que o futebol, neste país troikamente resgatado, consegue ter o condão de ofuscar os mais solenes, importantes e delicados temas de reportagem, como as cerimónias de Fátima ou a campanha eleitoral para as europeias.
E a partir do exemplo da transmissão da final da mais importante prova europeia de futebol, ficámos a saber a razão pela qual muita gente, por esse mundo fora, pensa que Portugal é uma província de Espanha: a TVI, televisão portuguesa a quem foram concedidos os direitos televisivos para a difusão da dita final, que opunha Real Madrid – Atlético, conseguiu dar mais importância ao momento do que qualquer televisão espanhola.
Com tanto exagero, espero ainda ter estômago para a sobremesa que se avizinha.