O Arco da Governação: Um Mito Assente na Falácia.

“Envergonha-me saber que há um português com fome”
General Ramalho Eanes, 08/01/2016, in entrevista TVI.
 
Ao longo de quatro décadas, a sociedade portuguesa conviveu “pacificamente”com a irrefutável ideia, quase generalizada, de que o país não podia ser governado por certas forças partidárias de esquerda, marcadas pelo rótulo da “irresponsabilidade”, porque a sua visão para o país era construída na base de pressupostos românticos e utópicos. Pelo que a tarefa de governar a Polis coube, até ao final de 2015, como que por vontade divina, àqueles partidos que se arrogaram no direito de pensar que a idoneidade e o valor do “supremo interesse do país”era um exclusivo seu.
Passados estes anos de Democracia, demo-nos conta de que todas as políticas ensaiadas contribuíram para criar uma sociedade mais desigual, mais pobre e mais injusta, simplesmente porque assistimos, num grau sem paralelo, a uma completa subversão da matriz ideológica dos partidos que têm feito parte do famigerado arco da governabilidade. Uma evidência que nos convida a rever e reformular o conceito de social – democracia.
Independente das circunstâncias em que o actual governo tomou posse, a verdade é que esse “tempo novo” de que fala Sampaio da Nóvoa, o tempo do compromisso e do consenso, em que todos, quer sejam de direita ou de esquerda, podem dar o seu contributo, só foi possível, porque António Costa teve a coragem e a ousadia de enfrentar a inevitabilidade e negar um caminho que, forçosamente, nos conduziria ao abismo.
Há, em meu entender, duas razões que explicam o porquê de só agora se chegar à conclusão da urgência no virar da página:
Por um lado, porque a consciência e as convicções de uma grande maioria dos portugueses estavam moldadas debaixo do preconceito de que os entendimentos entre as várias forças políticas eram qualquer coisa de surreal, por força do radicalismo que caracterizava a esquerda. Nada mais patético e falacioso, porquanto o radicalismo em Portugal, tanto o de direita como o de esquerda (não fôssemos nós um país de brandos costumes!) é suportável, civilizado e inofensivo. Não se partem vidros das montras nas manifestações de rua, não se incendeiam caixotes do lixo, não se arremessam cockteils molotov, etc. Quando muito, umas provocações verbais.
A segunda razão tem a ver com os obstáculos colocados a todos os que, fora das máquinas partidárias, movidos pela urgência da mudança, tentam aceder ao mundo da política, num sistema ultra blindado, onde apenas aos “sócio do clube privado” é permitido. E como argumentação para afastar os “intrusos”, os “instalados” arremessam sobre os adversários a pedra da “inexperiência governativa e parlamentar”, contrariando, assim, o pensamento de George Bernard Shaw, dramaturgo e ensaísta irlandês, segundo o qual “ a sabedoria dos homens é proporcional não à sua experiência, mas à sua capacidade de adquirir experiência”.
E não é necessário reclamar os galões da experiência (a não ser a da vida) para se perceber que o drama do “português com fome”, o drama do desemprego e tantos outros, despertarão tanto mais a consciência colectiva, quanto mais forças partidárias forem convocadas para fazerem parte das responsabilidades governativas – partindo, como é evidente, do princípio de que para a causa seria aportado tudo o que de mais positivo teriam para oferecer cada uma delas.
Admito, pois, que este “tempo novo” – intemporal e não discriminatório -  seja a pior das notícias para aqueles que fazem da política não uma causa nobre, ao serviço de todos, mas a sua coutada, o lugar privilegiado para satisfazer as clientelas, promover e cultivar, por acção ou omissão, o nebuloso mundo das promiscuidades que todos nós conhecemos.