O brilho da democracia e as trevas da natureza humana

 
Manifesto a minha profunda alegria por conhecer os males que nos têm afectado nos últimos tempos, mesmo que esses males expressem todos os horrores que a natureza humana pode gerar.
Ao olharmos para todas as vigarices que se passaram no BPN e no BES; ao conhecermos os problemas de Sócrates com a Justiça; ao sabermos das dificuldades de Passos Coelho em justificar o seu passado e as suas fugas ao fisco e à Segurança Social; ao sabermos que as finanças tentaram proteger a base de dados de Passos Coelho e do Presidente da República e, para disfarçar, meteram lá José Sócrates e Manuel Pinho, na tal Lista VIP; ao conhecermos a prisão do líder das secretas, só temos que proclamar: «abençoada democracia» que, graças ao conflito de interesses que permite, permite também o conhecimento dos problemas.
Os inimigos da democracia proclamam que, antigamente, não havia tanta corrupção. Pura mentira e pura ilusão. Apenas não se conheciam os problemas porque os poderosos e os corruptos dominavam a comunicação social e os aparelhos da investigação e da justiça.
O brilho da democracia está na possibilidade de se conhecerem sempre os problemas por mais secretismo em que se queira envolve-los. Há conflitos de interesses e isso protege-nos porque permite que a verdade venha ao de cima. A natureza humana não é ou geralmente boa ou geralmente má. Ela é boa e má porque em cem pessoas ao acaso há quase sempre cinquenta a tenderem para o bem e outras cinquenta a tenderem para o mal. Caim matou Abel porque este era bom e aquele mau. Adão e Eva tinham tudo no paraíso mas a volúpia e a gula humanas são intermináveis e, assim, estas criaturas míticas fizeram instituir simbolicamente o pecado original.
O grande erro da nossa democracia, que tem vindo a corrigir nos últimos 10 anos, foi o de pensar-se, à Jean-Jacques Rousseau, que todos os seres humanos são intrinsecamente bons quando, em parte, é o contrário: 50% tendem para o bem e 50% tendem para o mal. Por isso, a estruturação dos sistemas sociais e de justiça tem de premiar o bem e punir o mal, para ambos os casos em doses proporcionais à grandeza, seja do bem seja do mal.
Que se conheçam tantos problemas e erros no nosso Estado e na nossa Sociedade só demonstra que a nossa democracia está a funcionar e que as polícias e a Justiça estão a ter êxitos no seu trabalho.
Que é pena que tenhamos actuais ou ex-primeiros-ministros a contas com o fisco e com a justiça, é verdade e não devia acontecer. Que é pena que constatemos que, afinal, os dirigentes de topo da administração pública mandem mais do que os governantes, também é pena e tem de ser corrigido. Mas, agora, imaginem por um momento que não sabíamos nada disto. Estaríamos melhor, no mundo das trevas, da ignorância e da manipulação?
O problema não é da nossa democracia mas sim dos seus partidos e da natureza humana. Há que punir os prevaricadores.