O Cabo do Machado…

Dizem os entendidos, temos dos bons, que nossa primeira Mátria foi o ventre de nossa mãe. Lá, protegidos, fomos sofrendo acrescentos, upgrades como agora se diz, até atingirmos a perfeição, isto é, até ficarmos preparados para o mundo. Um dia, ao percebermos que o alimento acabou, anunciamos ao mundo o querer nascer, enchemos os pulmões de ar e, sofrendo, gritamos bem alto a vontade de viver sentido apenas a Liberdade que a lufada transportou.
E pronto, desta forma, enfrentamos a agressividade, porque desconhecida, da nossa segunda Mátria. Teremos talvez uma certeza, a nossa mãe, que fomos conhecendo por dentro durante a eternidade de nove meses, essa vai proteger-nos e, como evidente, dela nos virão as forças e alento para o confronto do embate.
E lá vamos, deitados, de gatas e por fim em pé, pensando no inacessível, no toque dos céus. Cedo nos apercebemos das forças do contra, das marés revoltosas que se abatem sobre nós, dos medos e ciúmes dos outros, das fraquezas que nos tolhem, dos medos que nos visitam pela calada da noite e nos roubam os sonos e sonhos que nos agigantariam. Muitos de nós, cumpridores e honrados, trabalhadores e humildes, simples mas enormes de alma, transmitiremos à família o gene do desassossego, da infelicidade, da pobreza, da dependência, da revolta e da impotência.
Abril trouxe-nos a esperança, o sorriso dos amanhãs, o rebentar do fosso desigual, a reposição da equidade, a fraternidade, o acesso ao mérito, a recompensa pelo esforço, a amizade confiada, as brisas da liberdade e igualdade. Mas, ilusão suprema, quarenta anos democráticos foram murros no estômago, traições de iguais, executares de repugnâncias, aviltamentos às intimidades, a troca de uns por outros, a infâmia dos direitos adquiridos corporativos e o destroçar da esperança.
A mesquinhez de uma esquerda que vive dos escombros e se alia a uma direita cínica armada em democrática colocou no governo um bando de adolescentes, marionetas de uns senhores muito bem sentados no verdadeiro poder, aquele que faz girar os dinheiros que circulam pelos baixos e fundos e se atafulham nos cofres estrangeirados do ilusionismo trapaceiro.
Estamos todos a sentir na pele o outro lado da revolução, a face negra dos que nunca perdoaram, o rancor dos poderosos apeados, o regresso dos filhos dos senhores do passado e o ajuste de contas dos que nunca aceitaram a perca do poder e das mordomias.
Chegou a hora do murro na mesa. Este Costa e este PS terão de separar as águas talvez com novo leito, mudar de rumo, mostrar bem alto os valores que o separam da direita ausente de afectos e olhares atentos às desigualdades sociais.
Saídos de dentro de nós, o Governo e a Presidência, fazem-me lembrar a centenária árvore que ao ver a aproximação do lenhador chora com mágoa ao observar O Cabo do Machado…