O Canto da Sereia

Venho aqui todos os anos por altura da passagem do ano. Está um dia bonito, frio mas, mesmo assim, acolhedor.
Estou no terraço da terceira torre da Pasteleira, grupo Varanda da Barra, foz do Douro. A imensidão, o rasgar de olhos, o azul estonteante do entrosamento entre o mar e os céus, a silhueta de todo o meu Porto, tudo isto me prepara e robustece para o embate do que aí vem, bom ou mau.
Minha família habita aqui, por aqui errei na era louca juvenil e muitas vezes pedi socorro a este local sagrado quando em confronto, comigo e com as miragens que daqui se observam. As miragens são feitas de sonhos e quem não sonha não vive.
O terraço é um quadrado enorme com falsas varandas, protectoras das vertigens, e a altura é a de um décimo quarto andar. Os ventos, as gargalhadas das gaivotas que picam e voam num estonteante bailado, o rio Douro esvaindo-se no mar que o abraça, um cabedelo milenar que nos observa, um Castelo de Gaia que grita sua existência, duas pontes que me olham de frente e um mar, um mar gigante e azul que se me oferece, tudo me rejuvenesce.
Mudo-me de lado e vou por aí afora, por Matozinhos adentro até aos confins de Leça. Pelos lados opostos tenho o Porto a meus pés, do Palácio de Cristal, Clérigos, clarabóia da Bolsa às cúpulas apontadoras das igrejas centenárias e imponentes telhados mortinhos por me contarem os segredos que guardam.
Estive neste sítio centenas de vezes, de noite e de dia, este é um local afagador, onde apenas poderemos ter medo da nossa sombra pois que tudo á nossa volta está do nosso lado, algo que se desfruta sem retribuições, sem cobranças.
Sinto-me, neste final de ano, em vazio existencial, despido de sonhos vertiginosos, sou embarcadiço em nau sem rumo, sem comandante apontador.
Lembro-me, se me lembro, dos discursos de Mário Soares no final de cada ano e nas esperanças no advir. A face de Mário Soares, cristalina, face genuína e não de treino, insuflavam as resistências aos tormentos vindouros.
O Futuro não faz sentido quando um Presidente estático, sem alma e sem faces genuínas de aconchego, nos alerta para as Falsas Promessas quando, aos olhos de todos e numa vil traição á figura de Presidente de todos os portugueses, alimenta e aplaude de pé o seu Governo, governo que em quase quatro anos apenas soube ter em cartaz O Canto da Sereia…