O Chá da Urbanidade

Um reputado professor de Língua Portuguesa da nossa praça, aquando da entrega dos testes de avaliação aos alunos, usa como método de “dissuasão” do erro gramatical, de sintaxe ou de concordância, aquela que me parece a mais correcta das pedagógicas: em vez da humilhação de, no quadro preto, em plena sala de aula, evitando a crueldade juvenil, identificar e apontar o(s) autor(es) desta ou daquela incongruência, faz o levantamento de todas as inconformidades, com a respectiva correcção, dando a possibilidade aos “prevaricadores” de se redimirem sem traumas nem constrangimentos.  
Seguindo a recomendável pedagogia da omissão do nome, através deste espaço de opinião, queria tentar fazer soar o alarme da consciência duma ilustre figura de Bragança, a quem imputo não a responsabilidade de qualquer subversão às regras da gramática, mas pela não observância dos mais elementares princípios da boa educação -  não sem antes, como se impõe, ter a preocupação de contextualizar.
Este senhor, que recebe, com toda a propriedade, a forma de tratamento de doutor (é um canudo dos de certo, como diria um amigo meu), proeminente figura pública regional, num dia tórrido do pretérito mês de Julho, acedeu, no seu vistoso automóvel, de forma indevida e abusiva, ao parque de estacionamento duma certa repartição pública cá do sítio.
Momentos antes de garantir o disputado lugar à sombra, um funcionário da dita instituição, que estava naquele preciso momento a entrar ao serviço, educadamente, fez-lhe saber que aquele espaço era reservado a quem ali trabalhava – pelo que, naquelas circunstâncias, nem sequer o chegar primeiro era um critério de prioridade. Não o conseguindo demover da intenção de aparcar, o servidor do Estado, para evitar problemas, “cedeu” o lugar ao senhor doutor, sendo forçado a procurar outra alternativa, sem que da boca do intruso tivesse ouvido um “bom dia” “, um “ queira desculpar” um “será que posso…?”ou um “muito obrigado”.
À distância, conhecendo eu, ainda que vagamente, a “peça”, o facto presenciado não me surpreendeu, porquanto se adequa perfeitamente à personalidade e ao carácter do protagonista. Pessoa arrogante, presunçosa e de nariz empinado, acometido dos mais marcados tiques aristocratas, sente-se, à escala local, o “dono disto tudo”, como se toda a gente, aqueles que julga não pertencerem à sua casta, tivesse obrigação de lhe prestar vassalagem.
Ouve-se, com alguma frequência, estabelecendo-se um certo paralelismo entre o hoje em dia e no meu tempo, que as novas gerações se esquecem muito das boas maneiras, de dar a primazia às senhoras e aos mais velhos, das palavras mágicas, das expressões de cortesia que, soando melodicamente ao ouvido, são um sinal de respeito nas relações interpessoais.
Não havendo, pois, base científica para que tal sentença seja capaz de se converter em algo definitivo e irrefutável, arrisco tomar como certo que pessoas da estirpe do “aluno” invocado tenham tomado, no momento apropriado, o chá da urbanidade e da boa educação.
Ainda que, em termos de resultados da acção pedagógico, fosse minha intenção imitar o professor de Português supra citado, tenho plena consciência de que o “discente” que motivou este artigo continuará a lavrar nos mesmos erros, por culpa da má formação moral.
Se o não fizesse, estou certo, estaríamos perante um processo de despersonalização/transfiguração involuntária do “eu”.