O Charlie e os Nossos Emigrantes

Como é perfeitamente compreensível, os atentados terroristas do pretérito dia 7 de Janeiro, em Paris, converteram-se, pelo impacto e consequências que deles resultaram, no tema do momento: durante duas semanas consecutivas, a comunicação social deu amplo destaque aos acontecimentos.
Na ajuda à compreensão deste fenómeno, nas suas várias dimensões, nós, vulgares cidadãos, tivemos a felicidade de, nas televisões, contar com o precioso contributo dos de sempre: especialistas e investigadores em geoestratégia, geopolítica e terrorismo, revelando-nos a táctica, o modus operandi e o posicionamento dos “fiéis” no “teatro de operações”; dos psicólogos, reclamando a teoria de que a barbárie a que o mundo assistiu, numa espécie de interpretação pavloviana da motivação, se explica através do fenómeno da “guethização”.
Num certo radicalismo ideológico, apoiado nos dogmas sustentados por alguns estudiosos do comportamento humano, é possível, imagine-se, defender a tese de que os autores destes atentados reagiram ao racismo e ao sentimento inslamofóbico de que são vítimas na sociedade em que (não) estão inseridos.
Se essa fosse uma teoria válida, os nossos emigrantes, nomeadamente os que pertencem à diáspora dos anos 60 do século passado, teriam razões de sobra para se considerarem, em termos de integração/aceitação, tanto em França como na Alemanha, uma comunidade discriminada.
Se assim fosse, pelas imensas dificuldade e provações que esta gente passou, na maioria dos casos, experimentando na pele o verdadeiro significado da expressão “comer o pão que o diabo amassou”, e tendo apenas como único objectivo arranjar um trabalho digno que, como todos nós sabemos, o seu país/regime de então não lhes conseguiu garantir, diríamos que foram vítimas de lusofobia. Ou seja, à luz desta tese tonta, qualquer Silva ou Ferreira teria “legitimidade” para se vingar da sociedade que o não compreendeu e infernizou a vida.
Provavelmente, como nenhuma outra comunidade, os portugueses integram-se facilmente e geram empatia, independentemente dos países que os acolhem. São gente honesta, de bem, trabalhadora e, como pessoas civilizadas, não impõem as suas regras em casa dos outros. Apesar dos muitos obstáculos que os portugueses experimentaram, enquanto emigrantes, desde o idioma à cultura, sempre se nortearam religiosamente segundo a máxima integradora e da sã convivência: “ Em Roma sê romano”.
 Sendo, no entanto, falaciosa a teoria do guetho, a tese oposta, fundada na ideia (não menos radical) de que os muçulmanos são todos iguais, além de perigosa, está longe de ser saudável, principalmente numa Europa cada vez mais multicultural e cosmopolita. Uma realidade que não nos permite ter certezas quanto à eficácia e bondade da revisão do acordo de schengen, de que muitos são partidários.
Aquilo que se pode tomar como garantido é que o Ocidente, mais do que em qualquer outro período da sua história, dorme por cima de um barril de pólvora. A matéria combustível é muita, sendo o seu potencial de ignição incalculável.
Defender, pois, que o ocorrido na capital francesa, na estação de Atocha, em Madrid, ou no metro de Londres, em momentos distintos, se deve, qual fatalismo, à inevitável dinâmica civilizacional, é a mais descarada e pura das hipocrisias.
Num ambiente de tensão e de posições extremadas, logo, pouco dado à lucidez, não consigo “filiar-me”, em definitivo e sem reservas, na “causa” Charliana, simplesmente porque a liberdade de expressão está longe de ser um valor absoluto, pela dificuldade de se definirem as suas fronteiras.