O Deserto dos Carmelitas

Todos tivemos um momento em que o silêncio se transformou em amigo e em que, mais um ser, seria estorvo. A vida, em que muitas vezes desejamos ter sido outra, fez-nos gente sem tempo disponível no parar, no olhar para dentro. O sufoco pela sobrevivência, pelo caminhar de cabeça levantada entre os outros, entre iguais diferentes, exige esforço desmedido e sem limites, evoluímos sem amparos, no fio do stress. Mas é no apetecer da desistência que pulamos, seguimos em frente.
Na juventude que lá vai, falo do corpo, interroguei-me amiúde, imaginei-me vezes sem conta nos inícios do mundo, entre os céus que explodiam e a terra em ejaculações de fogo. O temer levou, com toda a certeza, à prece, e Deus abraçou o mais frágil ser vivo que despontava do caldeirão germinador, o homem. O confronto pela posse abriu novos trilhos e as gentes dispersaram-se nos mares e continentes originando nações várias.
As religiões, credos diferentes, foram e são origem da paz e das guerras, desastrosas e apocalípticas. Falar da Inquisição ou dos massacres pela posse do Santo Sepulcro é aviltamento a Deus, coisas dos tristes seres em que nos tornamos.
Desde sempre que as terras áridas, lugares de ninguém, paraíso dos ventos que gelam ou dos calores infernais, onde a água se tornou miragem de loucos ressequidos, foram tesouros procurados pois que guardadores dos silêncios que acalmam. Muitos mesmo rumaram e desapareceram nas areias que engolem, em busca do Criador. Pensou-se, a História relata, que as subidas ajudam na ascensão, no toque dos céus. As montanhas, refúgios de eremitas, ou os zigurates que empilham degraus rumo às nuvens, foram vãs tentativas de encontros, de proximidades procuradas mas nunca encontradas.
Há pouco, cerca de um mês, fui confrontado com notícia de abrir a boca, o espanto tolheu-me, a pequenez do conhecimento aterrou-me: Portugal quer elevar a Património da Humanidade, um lugar de silêncios, da aridez que permite a contemplação, povoado pelas pedras, pelos uivos, pelos trovões, pelas águas que brotam puras e cristalinas e onde a orografia permite a elevação das mentes que procuram o encontro com o princípio, com o início do mundo, com o Pai.
Só que este lugar foi gizado, construído a partir do nada, plantado, arborizado, e a ascensão foi-se cimentando através de séculos. Diz a História, falo da nossa História, do Portugal que somos, que com a autorização do Bispo de Coimbra, senhor daqueles domínios, uma Ordem Religiosa poderia dominar o sítio com o fim último do encontro com Deus. O nascimento da mais fabulosa e luxuriante mata portuguesa ganha formas a partir dos anos 1640, o Buçaco ergue-se imponente, com exótica vegetação, com fauna e floras nunca vistas mas, lá no meio e escondida dos mortais, foi construída a Via Sacra mais extensa, três quilómetros em curvas, com capelas e figuras á dimensão humana, preservadas dos olhares mundanos, procuradas pelos ávidos dos silêncios, que as almas engrandecem e sufocam.
Falo da aridez luxuriante, dos ventos gélidos que aquecem, dos calores que refrescam, do Buçaco, da Via Sacra e dos Carmelos. Eis, em todo o esplendor, O Deserto dos Carmelitas…