O êxito das Primárias do PS e a desorientação do Governo

As eleições primárias do PS correram bem. É uma conclusão consensual. Correu bem o processo de inscrição dos simpatizantes, correu bem o dia da votação, correu bem o apuramento dos resultados. Pode-se mesmo dizer que o processo em si ultrapassou as expetativas.
 Tratando-se de uma experiência inédita e complexa de eleição no seio de um partido, havia a natural preocupação de que algo pudesse correr mal, pondo em causa o modelo. Felizmente, ao contrário do que muitos recearam, eu incluída, as primárias foram um êxito. Desde logo pela quantidade de simpatizantes inscritos. Cerca de 150 mil “independentes”, número superior ao dos militantes ativos, perceberam a urgência de saírem da sua zona de conforto e transporem a ténue fronteira da sua independência para assumirem o estatuto de simpatizante. Foi um exemplar exercício de cidadania e de reconhecimento de que ser cidadão confere direitos e deveres.
As primárias provaram que, afinal, os cidadãos não estão assim tão divorciados dos políticos como muitos apregoam. Quando há uma causa mobilizadora, os cidadãos participam sem constrangimentos nem álibis. Muitos destes eleitores simpatizantes nunca tinham entrado numa sede partidária e, alguns meses antes, nem sequer imaginariam fazê-lo e muito menos dar público testemunho da sua opção política. Foi bonito de se ver uma tal mobilização, pelo significado que encerra e pelo sinal positivo que transmite. Dezenas e dezenas de milhares de pessoas, de Norte a Sul do país, dos Açores e da Madeira, revelaram uma intangível maturidade e, como o poeta, acharam que era a hora, a hora da mudança no PS para mudar Portugal. E transformaram um sentimento inominado de “perda” e a vontade de protesto em confiança num líder político e no futuro de Portugal. Inopinadamente, a esperança renasceu em muitos portugueses, o que assustou os parceiros da coligação governamental, os partidos de protesto e os populistas e demagogos que emergiram e engordaram por falta de alternativa política. Foram os primeiros a perceber que, com António Costa na liderança do PS, vão perder espaço político, apoios e votos. E vão ter de enfrentar um adversário bem preparado, que sabe o que quer para o país e que não hesita nem se deixa intimidar quando está em causa o interesse nacional. E porque o temem, é que o atacam.
Enquanto o PS mobiliza os portugueses, o governo soma erros e mais erros e dá claros sinais de desagregação. A situação caótica a que os respetivos ministros conduziram a Justiça e a Educação é a prova cabal da incompetência deles, da falta de autoridade do Primeiro-ministro (que já os devia ter demitido) e do desrespeito deste governo pelos direitos dos portugueses. Este governo há muito perdeu a legitimidade política, só é sustido pelos laços cúmplices do Presidente da República. Por razões ideológicas, Cavaco Silva foi um dos responsáveis da queda do governo de José Sócrates e, agora, é o principal sustentáculo de Passos Coelho. Não só não se lhe ouve uma crítica sobre as trapalhadas da colocação de professores, da abertura do ano escolar e do apagão do CITIUS, como inclusive deu acolhimento e cobertura às explicações atabalhoadas do PM sobre honorários auferidos quando era deputado em regime de exclusividade.
No atual estado de sítio, mais premente é mudar de rumo e de protagonistas. Ou seja, é preciso eleições legislativas quanto antes.