O fanatismo islâmico

Talvez nunca se tenha falado tanto de fanatismo como nos últimos dias por causa da matança no Charlie Hebdo. No entanto, em lado nenhum vi um comentador que explicasse ou definisse o conceito de fanatismo. Por isso, gostaria de, nesta breve análise, começar por aqui.
 
1 – Para mim, o fanatismo implica 3 características ou pressupostos:
1.1 – No plano do conhecimento, o fanático está convencido de que as suas convicções são as únicas «verdadeiras», sendo falsas todas as outras.
1.2 – No plano da ética, o fanático acredita que as suas convicções são as únicas «boas», enquanto que todas as outras estão do lado do «Mal».
1.3 – No plano da praxis, o fanático entende que tem o direito de usar a violência, incluindo a violência física, para impor aos outros as suas convicções.
 
2 – Analisando casos concretos do fanatismo ao longo da História, temos que distinguir uma doutrina fanática duma pessoa fanática. Uma doutrina é fanática quando ela mesma assenta nos 3 princípios que apresentámos no ponto anterior, nomeadamente o direito do recurso à violência para se impor como modelo de sociedade. Por isso, há doutrinas fanáticas e doutrinas não fanáticas.
Por outro lado, verificamos também que há pessoas fanáticas e pessoas não fanáticas. As primeiras acham que as suas convicções são as únicas verdadeiras e boas, não aceitando ser contrariadas e entendendo as opiniões contrárias como uma afronta pessoal, que se acham no direito de combater, inclusivamente através da violência física. As outras têm uma personalidade com uma estrutura psicológica assente na reciprocidade, ou seja, na igualdade de direitos e deveres entre o Eu e o Outro.
 
3 - Nestes termos, põe-se a questão: o islamismo é fanático em si mesmo, como doutrina, ou são alguns dos seus seguidores que o vivem duma forma fanática? Francamente, em termos teológicos, não sei responder. O que não podemos ignorar é que há pelo menos um modo de entender o islamismo que é claramente fanático. As vítimas do terrorismo islâmico como Malala, os jornalistas do Charlie Hebdo, as decapitações e tantos outros são um exemplo claro desse fanatismo, que não podemos tolerar numa sociedade civilizada e moderna.
 
4 - Isso, no entanto, não pode servir de pretexto para defendermos a liberdade de expressão como um direito absoluto, que nos permitirá ofender os outros nas suas convicções e nas suas crenças, como temos vindo a assistir nos últimos tempos, num frenesim hipócrita que colide com a prática de muitos desses pretensos combatentes do fanatismo dos outros, mostrando-se incapazes de olhar para o seu.