O Fascinio do Império

 
Nem os ideais da paz que, mais uma vez, a Carta da ONU adotou e prometeu, nem as surpresas soberanas dos filhos da mundialização, uma designação fraterna para os países mais conhecidos pelos Brics, estes, antigas colónias, pondo de lado a união entre o poder militar e a capacidade económica e financeira, para ser na competição nesta última área que se afirmam, nada consentiu invocar o fascínio imperial. O Brasil, por 2010, conseguiu apresentar a Petrobras como a sociedade que fizera o maior aumento de capital da história, a Rússia mudou de regime e aumentava exponencialmente a segunda cota de estudantes estrangeiros no ensino superior, e a China exibia o maior crescimento do decénio do produto interno bruto real, com o grupo à espera da África do Sul (Ramses, 2012). De império não falava nenhuma das potências, nem as que tinham apropriado a designação de vencedoras da guerra, nem as que emergiam como superpotências na guerra económica e financeira que foi anunciada como substituindo o confronto militar a passar pelo intervalo da guerra fria.
Infelizmente, o verdadeiro desafio com que vai adoecendo a ordem internacional, obriga a reconhecer que, com nova semântica, ou sem apagar à antiga, a ideia de império entretanto ganha novo alento no fundo pouco transparente dos conceitos estratégicos. A começar pela Europa, origem das duas mais tremendas guerras que exigiram a qualificação de mundiais, e que chegou a dar a imagem de uma futura reorganização sem Estados agressivos.
O que significaria uma verdadeira revolução ideológica, travada sem trajeto provável irregular ou publicamente compreendido pelas sociedades civis, formando já nações ou aglomerados plurais. Quando os Impérios eram a forma dominante das grandes potências, o espaço europeu tinha o Império Britânico, o Império Alemão, o Império Austríaco, o Império Russo, e, às portas, desde a invasão, o Império Otomano, com a área acrescentada pelos Impérios Coloniais, em que Portugal ainda figurava, e, nas lonjuras das expansões, o Império Francês, o Japão e a China, tudo objeto de um valioso trabalho de Robert Gerwarth a Erez Manela (Publicações D. Quixote). A ideia americana da relação Nação-Estado, assente na Paz de 1918, pode hoje ler-se como um anúncio, quanto à Europa, de uma organização do espaço em que a Unidade implicava o desaparecimento progressivo do modelo imperial, e dando finalmente lugar a uma união política continental, nesta data a União Europeia, ainda sem conceito estratégico. A doutrina de Willson, sem discutir se os EUA tinham por limite uma sua fronteira de interesses, parece todavia desafiada por sinais que se multiplicam, em busca de uma convivência com um globalismo também objeto de uma visão plural. Depois do crack financeiro de 2007 cresce a dúvida sobre se “é possível, provável, e desejável, uma Europa unida”, e no entretanto desponta uma das facetas do extinto Império Alemão, que foi a de hierarquizar os Estados, menos europeus, menos poderosos.
Na Rússia, que também cultivaram, em regime soviético, um projeto de unificação europeia, despertou a velha convicção de que a III Roma não cairá, e entrou em exercício de expansão. Faltava que o terrorismo islâmico, nascido em modelo de rede, voltasse à ambição do sultanato, para exigir da Europa, que escolheu Erasmus para patrono das novas gerações, que voltasse a meditar na angústia com que ele via chegar os turcos às portas de Viena.