O homem mais feliz do mundo

Os americanos são muito dados a chavões, sobretudo quando estes têm algum impacto mediático. É nessa linha que eu interpreto o facto de uma Universidade americana ter considerado Matthieu Ricard como «o homem mais feliz do mundo».
 
1 - Matthieu Ricard é um monge budista, de 70 anos, que, tendo completado o doutoramento em Genética Molecular, aos 26 anos, abandonou de imediato a sua carreira académica para se dedicar à meditação e à filosofia budista, na Índia e no Nepal.
Nos últimos anos, tem estado envolvido em vários projectos humanitários e culturais a favor das comunidades mais carenciadas do Nepal e, simultaneamente, tem andado um pouco por todo o mundo a falar do seu conceito de felicidade e da importância da meditação para atingir esse objectivo. Alguns dos seus livros, entre os quais «A arte da meditação», foram «best-sellers» em vários países. 
 
2 – A felicidade é a grande motivação que faz agir todos os homens em todas as circunstâncias. O grande problema é que, muitas vezes, confundimos a felicidade com a satisfação de necessidades fictícias e ilusórias, que radicam numa ganância insaciável e em vaidades balofas, invejas, narcisismos exibicionistas, rancores, ódios, luxúria e outros sentimentos similares.
 
3 - A tese defendida pelo monge budista coloca a felicidade num nível mais elevado e resume-se em poucas palavras: a verdadeira felicidade, diz Matthieu Ricard, por um lado assenta no desapego dos bens materiais para lá do que são verdadeiramente necessários, e, por outro, só é possível quando ela é «colectiva», ou seja, acompanhada da felicidade das demais pessoas, o que implica uma abertura permanente ao Outro necessitado. Para atingir este objectivo, torna-se indispensável um processo de análise interior que só a meditação frequente torna possível.
 
4 – No essencial, não vejo diferenças entre esta filosofia do monge budista e a teologia expressa nos Evangelhos, toda ela assente também no carácter contingente e efémero dos bens materiais e temporais, e na busca da felicidade que resulta do «amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos».
É certo que, ao longo dos séculos, muitos cristãos interpretaram e continuam a interpretar este quadro de valores à luz dos seus critérios pessoais, confundindo «amor a Deus e ao próximo» com o «imperialismo do seu eu», na linguagem de J. P. Sartre. Mas isto acontece muitas vezes na religião, como acontece igualmente na política, porque, para qualquer um de nós, é mais fácil o «dizer» do que o «fazer», para usar as palavras do Papa Francisco. Todavia, nenhuma doutrina pode ser responsabilizada pelos erros dos que se dizem seus seguidores, quando estes o são apenas no «dizer».
 
5 – Pelo atrás exposto, a meditação será, sempre, um meio importante para os insatisfeitos buscarem a paz e a serenidade de espírito, acima de qualquer contingência temporal, procurando, não a ilusória felicidade que resulta da satisfação de impulsos primários egocêntricos, tão enganadores quanto efémeros, mas da abertura ao Infinito e da fraternidade com o Outro.
Matthieu Ricard mostra-nos como a meditação fez dele «o homem mais feliz do mundo».