O Lado Perverso das Praxes

 
Pela seriedade que o tema reclama, parece-me importante que a apreciação do mesmo, na perspectiva de quem se atreve a fazê-lo, esteja liberta de quaisquer preconceitos, sejam eles ideológicos, ou derivem da falaciosa e inconsistente moral social (baseada no confronto geracional) que “determina”, sem que nada esteja provado, que “no meu tempo é que era bom!”.
Na sequência do assunto do momento, as praxes académicas, o presidente da Associação Académica do Instituto Politécnico de Bragança, Ricardo Pinto, manifestou-se publicamente contra o seu fim, porque, segundo este dirigente estudantil, “no IPB não têm existido problemas, nem reclamações de abusos”. Ora, o que tenho lido e ouvido sobre a matéria, de uma forma geral, a discordância entre os partidários das praxes e os que a elas se opõem reside não na matéria factual, a realidade, mas no que cada uma das partes entende por (recuperando as expressões do nosso dirigente estudantil) “problema” e “abuso”. Como estes conceitos não são vazios, e semanticamente não se prestam a equívocos, entramos então no campo da subjectividade: o que para uns é abuso, para outras pode não o ser. Ainda nesta semana uma estudante universitária dizia, perante as câmaras da televisão, confrontada com o hipotético fim das praxes, que tinha gostado de ser humilhada.
Em relação às declarações de Ricardo Pinto, não me custa admitir a veracidade do seu conteúdo. Como bragançano que não consegue estar muito tempo sem ver o castelo, folgo em saber que os rituais de integração dos novos alunos na instituição se processam dentro de um registo civilizado e edificante. Ainda bem que por cá as coisas mudaram, porque num passado recente, a linha vermelha era constantemente ultrapassada. Recordo-me de ver, por exemplo, há uma dezena de anos, em plena Praça da Sé, que o ritual de integração reservado a uma dada jovem caloira era simular uma cena de sexo oral.
Em face deste jogo sadomasoquista, muito comum em rituais de praxe, no qual se estabelece uma relação desigual entre duas pessoas, dominante e submisso, cabendo ao segundo a tarefa de obedecer servil e cegamente o primeiro, muitos se interrogam sobre o porquê e como este fenómeno perturbante acontece.
À primeira vista, dispensando o parecer avisado de quem é entendido em questões do comportamento humano, diria que as motivações de quem se sujeita à humilhação gratuita, consentida, tem a ver com a noção de grupo, de pertença, da necessidade de ser aceite por quem entendem ser a sua referência moral e espiritual, qual religião a seguir. No fundo, são comportamentos, opções, pouco racionais. A parvoíce, a obscenidade, o ridículo, o fascínio pelo abjecto são estados de alma e manifestações de carácter que o ambiente gregário acolhe, potencia e premeia.
À pergunta se sou a favor ou contra as praxes, a resposta é obvia para quem, como eu, procura encontrar sempre a solução no meio - termo: sou, sim, a favor das praxes, mas quando os que nelas participam e se envolvem o fazem dentro dos limites do razoável, do bom senso. Não se esperando, como é natural, que alunos universitários, com 18/19 anos, tenham comportamentos de meninos de coro, é inconcebível, no entanto, que jovens desta idade, para se divertir, se prestem, exerçam e se submetam à humilhação e à violência, em nome de não se sabe o quê.
 Sou, sim, a favor das praxes, quando estas se transformam num exercício de cidadania. Quando praxistas e praxados se envolvem (a par de toda a vertente lúdica que, de forma elevada, lhe é inerente) em actos solidários, como a recolha de alimentos destinados a instituições de solidariedade social, e se oferece, num profundo e tocante gesto, no dia da recepção, o almoço aos caloiros e seus familiares – prática instituída no Politécnico de Bragança, de acordo com o proclamado por Ricardo Pinto.