O largo da aldeia para todos

Admiro a vida dos que a pautam por percursos dignos e honrosos, cortando metas de sucesso à força da sua própria força e do seu mérito, sem o concurso dos ombros de terceiros, sem aventureirismos levianos, sem afastamento dos outros dos caminhos que, também eles, têm direito a percorrer. Admiro os que vencem cavalgando o seu próprio trabalho, árduo e suado. Recuso louvores àqueles que, por pérfidas artes e manhas traiçoeiras, se apoderam dos lugares a que outros ascenderam na prática virtuosa da honestidade, da honra e da dignidade. Porque louvores imerecidos. Recuso  favores injustificados com destino a uns tantos já favorecidos, bafejados por qualquer sorte indevida, prebendas sem sacrifícios, brindes de pais-natais ou mães-natais de ocasião, enquanto desfavorecidos continuam a ser deixados entregues à sua própria sorte, à sorte que o esfumar dos tempos lhes destine. Porque favores desiguais.
Não entendo a ânsia desmedida por certos poderes, tantas vezes não mais do que pequenos penachos sem qualquer significado, quando a valia pessoal ou profissional não reside em ostentação de poder, antes no exercício da autoridade conquistada e sustentada em perfil merecedor de respeito. Antes desejado do que desejoso. Ninguém sendo dono de nada, de nada se justifica que alguém pretenda ser dono daquilo que a ninguém pertence. Em nome de pequenas aspirações, tão pequenas quanto aqueles que as anseiam, ficam sacrificadas a amizade e a solidariedade, a colaboração e a entreajuda, privilégio ao individual, em detrimento do colectivo. Destrona-se o princípio de cada um por todos e todos por cada um, para se entronizar um outro, o de cada um por si e para si, o altruísmo cedendo lugar ao egoísmo, à inveja desmedida, à ganância sem fronteiras. Concede-se particular valor ao próprio umbigo, quando limite dos horizontes de quem quer que seja. Para as bermas das estradas e as valetas das ruas são projectados “mortos” e “feridos”, todos aqueles que possam equivaler a estorvos nos objectivos que se determine alcançar, ainda que pelos meios mais abjectos. Em nome de desígnios que se desejam opacos ou translúcidos, todavia apresentados transparentes, achincalha-se seja quem for atravessado no caminho, sem pudor e sem limites de sensatez, raiva vertida sobre o inimigo que nem sequer o é ou alguma vez o pretendeu ser. Inimigo somente porque faz o seu percurso de forma honrada, porventura quando esse mesmo percurso não ofertou ao agressor o que desejaria, ou porque desejasse este calcorreá-lo à revelia das regras. E o mais lamentável aparece quando se escolhem praça pública e plateias para dar voz aos ódios e aos ressentimentos. Ficando com quem os pratica e humilhando-se quem se deveria exaltar, nunca é certo que as objectivas de certas mentes fotografem os acontecimentos à perfeição. E a dignidade e a honra magoadas jamais se recompõem, por vezes, porque nem todos têm a capacidade do menosprezo por quem magoa tão ferozmente.
Sonho com o largo da aldeia para todos, sem discriminações e em igualdade, a amizade e a solidariedade sem nomes, a entreajuda sem marcas, a paz e o bem-estar sem preconceitos, a cidadania para todos os cidadãos.