O Lodo e as Estrelas

O meu Verão de 1975, após um semestre em França, foi dedicado a O Lodo e as Estrelas, do Padre Telmo Ferraz, agora justamente celebrado pelos conterrâneos de Bruçó. Ocupou-me a tal ponto, que só há duas entradas no diário da época:
«31 de Julho. O grupo amador A Máscara estreia O Lodo e as Estrelas, que adaptei da obra homónima [1960] do padre Telmo Ferraz: as condições sub-humanas em que vivem os construtores da barragem de Picote, nos finais de 50.
Vai ser a travessia do distrito, à boleia, dormindo, comendo e representando onde bem calhar. Cai-me o cabelo de um ano pelas costas e a barba não se fica atrás.
Não há outra saída nesta cidade para um verão tórrido e cheio de maus sinais. Extremam-se os sentimentos dos portugueses, enquanto me pergunto se vou estar um segundo ano parado, à espera de entrar na Universidade.
10 de Setembro. Terminámos a digressão, sete mânfios de boa vai ela. Houve de tudo: desde problemas internos a apodos de «comunistas». Servimo-nos de atrelados de tractores, dormimos sobre fardos de palha, lavámo-nos em chafarizes.
Foram 22 sessões, com a peça e respectiva discussão pública precedidas de versos mais ou menos violentos (de poetas argelinos, por mim traduzidos, ao “Cântico Negro” regiano) que eu debitava. Tudo, bom Deus, entre o louvável e o péssimo. Agora, descansando, e cortando sempre, revejo as minhas três peças na gaveta.»
Retrato do Grupo de Teatro A Máscara, com nome impresso nas t’shirts, e uma cena com o capitalista lendo jornal, indiferente ao proletário no lodo, podem ser vistos no blogue de Henrique Martins: são imagens de um tempo em que a juventude intervinha, no ano em que esquerdas queriam alfabetizar à força o Nordeste e direitas incendiavam sedes e automóveis.
 O nosso teatro de guerrilha, por terras onde nunca se vira um palco, talvez deixasse alguma impressão saudável – no título, ao menos, que certos jornais gralhavam como O Iodo e as Estrelas…
Eram textos curtos e fortes, e, como os trabalhadores que para o Douro vinham, prosas deslocadas, o que sobressaltou censores do espírito, sem a flagrante empatia dessas páginas.
A edição tornou-se raridade.
Enquanto isso, noutro palco de guerra, angolano, o padre Telmo Ferraz fazia infinitamente mais do que nós: salvava corpos e almas. Homem de barragens ao medo e à miséria, eu ia sabendo de seu cá e lá, sem a oportunidade de uma longa conversa em que agradecesse livro, entretanto reeditado (1975), convidando a olhar as estrelas. Agradecendo, também, haver uma criatura de Deus tão importante nas nossas vidas.