O ovo da serpente

Apesar deste tempo de descrença e desordem de costumes fiquei surpreso quando um estimado amigo, alta patente militar, possuidor de condecorações por feitos e ferimentos recebidos em combate exclamou: estamos a precisar de firmeza na Europa!
Os circunstantes também viam os efeitos dos distúrbios no âmbito do campeonato europeu de futebol, mas conhecendo nós o pendor pacífico do antigo combatente estranhámos o desabafo vindo de quem continua a procurar esquecer as maléficas consequências da guerra, no caso em apreço da guerra colonial. Ele atreito a esboçar sorrisos apaziguadores, ele benévolo ante as enormidades saídas da boca de especialistas de bagatelas a perorarem sobre os efeitos da violência nos seus diversos graus, ele estudioso das teses de Arendt sobre a banalidade do mal, repetiu: urge muscular a autoridade na Europa?
Interpelado reagiu em torrente: já repararam nessas hordas de jovens portadores de volumosos bíceps, alimentados a cerveja e vodka, possuidores de meios a permitirem-lhe figurar nos variados desacatos ao longo do ano, pois estes vergonhosos arruaceiros precisam de esgotar as energias numa guerra a sério, na qual a violência atinge proporções de tremer, como tremo quando os telejornais as referem a propósito de tudo e de nada.
Todos quantos estivemos nas zonas de combate, temos o triste lucro de conhecermos os efeitos da violência, para nós não é uma figura mítica ou hilariante estilo Valente Soldado Svejk (lenitivo na frente de operações, o Helder Barreira sabe do que falo), nem se reduz ao «achismo» de colóquios de espectadores esquecidos de Bergman.
O realizador sueco deu-nos um terrível e belo filme onde aborda as raízes da bestealidade humana expressas no nazismo, trazendo ao de cima a cobardia de inúmeros políticos e intelectuais (Julien Benda bem avisou) a permitirem a gestação do ovo da serpente. O título do filme.
No entendimento do militar pesaroso os desvarios dos brutos acéfalos filhos da sociedade europeia podem potenciar o ressurgimento de outros ovos como vamos verificando, daí ou são esmagados de imediato ou, paulatinamente, o extremismo ganhará almofadado pelos votos democratas. A possível crispação virulenta dos nacionalismos ganhou ânimo por via da maioritária decisão de saída do Reino Unido da Comunidade, os papagaios ficaram a palrar rotundidades no estilo dos explicadores da violência sem nunca a terem sofrido (dinda bem).
Desde a Antiguidade Clássica os amantes da reflexão têm escrito lúcidas páginas referentes à educação e comportamento dos jovens, no universo cinematográfico avultam variadas abordagens, lembro os filmes Sementes de Violência e a Laranja Mecânica, os acontecimentos de agora confirmam o desajuste social a redundar no grotesco quadro de as várias autoridades terem sido lassas ante os prevaricadores e pouco destras no auxílio às vítimas.
O sentido de impunidade dos violentos aumenta de dia para dia atravessando as comunidades, a erosão da autoridade é patente a todos os níveis, a bufonaria transparece no modo como os adultos tratam os adolescentes incluindo nas vestimentas e calçado, o Rei vai nu sem ousar dizê-lo porque politicamente é incorrecto, aos indefesos resta-lhe o voto. E votam na extrema-direita.
Nós somos um País pacífico proclamam as estatísticas. Ainda bem. O militar lembra os quarenta e oito anos de Ditadura. Pois!