O paganismo oculto

 
Hoje Portugal e Europa são sociedades pagãs, parecidas com o velho Império Romano. Os Apóstolos evangelizaram uma cultura que servia deuses concebidos segundo interesses humanos. Riqueza e sexo, guerra, comércio, colheitas, sabedoria e outros temas mundanos eram a base do culto pagão. Hoje, com outros nomes e liturgias, os nossos contemporâneos sacrificam aos mesmos poderes. Estamos rodeados de pessoas que, mesmo quando se dizem cristãs, vivem diariamente como se o Deus de Jesus Cristo nada tivesse a ver com a sua existência. Assim somos provavelmente a época mais parecida com a dos Actos dos Apóstolos e actas dos mártires.
Nos tempos que nos separam dos primórdios as coisas foram muito diferentes. Desde o século IV a religião mudou em grande parte da Europa. Depois, seja na decadência do Império como nas invasões bárbaras, nos tempos das cruzadas ou guerras religiosas, nos ataques iluministas e agressão romântica, a sociedade europeia sempre foi fundamentalmente cristã. A era da religião oficial dos estados europeus sobreviveu até há poucas décadas. Assim habituámos há muito que o sistema sócio-político fosse inspirado e, na maioria dos casos, até assumida e abertamente eclesial. Só muito recentemente a Europa se assumiu pagã. Os cristãos continuam presentes e influentes mas a atitude social de fundo é gentia.
Esta situação estranha traz-nos uma vantagem evidente: podemos obter orientações concretas a partir dos textos originais, cartas de S. Paulo ou sermões dos Padres da Igreja, que lidavam com situações paralelas. Hoje, face ao paganismo triunfante, voltamos aos tópicos e problemas dos Apóstolos.
Existe, no entanto, uma diferença importante. O paganismo contemporâneo não é explícito e claro. Existem magos e mistérios, espíritas, gnósticos, sociedades secretas e cultos esotéricos, mas a maioria dos pagãos não sabe que o é. Lidamos diariamente com pessoas que servem religiosamente a riqueza ou o poder, prazer ou carreira, mas não parecem pagãos. Pelo seu lado, muitos cristãos não se dão conta desse paganismo. Os missionários, dos tempos primitivos como em todas as épocas, sabiam estar a enfrentar culturas e maneiras alheias à sua. Isso gerava atitudes particulares, boas ou más, mas sempre claras. Hoje a oposição do novo paganismo é mais subtil.Como essa fé vem embrulhada em cânones científicos e sistemas políticos, parece mais sólida que as tolices da antiga mitologia. Isso leva muitos cristãos a ignorar os erros e falácias de tais doutrinas e ideologias. Essa dificuldade foi já sentida pelos nossos avós, nos cultos do seu tempo, liberalismo, utilitarismo, nazismo e comunismo, entre outros. Hoje verificamos o mesmo no ambientalismo e feminismo, capitalismo e ideologia de género, consumismo, regionalismo, burocracia, cientifismo e múltiplos movimentos afins. Todos eles, absolutizados em vários fóruns, transformam-se em idolatrias, como os papas têm repetidamente denunciado. Essa é a principal tentação com que tantos na Igreja são enganados.