O poder

O camarada Nikita, cognominado o martelo da Ucrânia, ainda o camarada Estaline não tinha sido colocado no sarcófago funerário e protagonizava acção onde perdeu a vida o tenebroso e famigerado Béria, tendo depois apresentado no XX Congresso do Partido o famoso relatório (quem o possuir ganha se o reler de quando em quanto) no qual disseca os crimes cometidos durante o reinado do Zé dos Bigodes, atribuindo-lhe a responsabilidade pelos mesmos. Enquanto secretário-geral do Partido Comunista soviético protagonizou cenas hilariantes, uma delas envolveu o sapato do pé direito em plena ONU, outras associam-no a grande consumidor de caviar e de vodka como se tais hábitos fossem defeito.
Anos mais tarde um golpe palaciano encenado por Suslov atirou-o pela borda fora sem a cabeça cortada porque os tempos tinham mudado, foi instalado em confortável datcha até aos fins dos seus dias. Ora, aproveitando a fresta da liberdade em vigor à época concedeu vivaz entrevista na qual alude ao sortilégio do poder, dizendo: um homem pode cansar-se de tudo, mesmo de tudo, mas nunca por nunca se cansa de exercer o poder. E neste ponto coloco a questão aos leitores: será que quando votamos para a escolha dos nossos representantes especialmente a nível local procuramos perceber as motivações dos concorrentes ao dito exercício? Será que temos o cuidado de verificar da exequibilidade das propostas que recheiam os seus programas eleitorais? Será que são proprietários de passado idóneo em termos profissionais? Será que no desempenho de cargos políticos pautaram a sua actuação pelo rigor, revelando capacidades longe do populismo expresso nos beijinhos e abraços? A cabal resposta a estas dúvidas deixo-as ao cuidado de cada um, no entanto, o tempo eleitoral é propício ao teste dos candidatos perguntando-lhe tudo quanto achamos importante com a finalidade de ficarmos esclarecidos. E, caso assim não aconteça, devemos insistir nas perguntas, se o candidato evidenciar irritação ante a nossa teimosia ficamos elucidados; votar-se nele é votar no escuro.
A nossa irresponsabilidade nesta matéria leva posteriormente ao arrependimento, mas de pouco serve beliscarmos a orelha, o castigo não passa de vibrante atestado de auto estupidez. Nada mais. A campanha está rua, sucedem-se os actos denunciadores de falta de decência, os autores actores procuram arrecadar o voto recorrendo a processos que os nossos pais castigavam sem dó, nem piedade. Será que merecem o voto? Seguramente, não!