O preço do equívoco

Uma interrogação que vai crescendo de importância nas meditações dos analistas é a de saber se o Estado ainda é a invenção apropriada para governar as sociedades. De facto o núcleo da inquietação é talvez o da redefinição da soberania, salvando-se a palavra para cobrir uma nova composição do poder efetivo, da sua graduação relativa, e da relação com organismos supraestaduais. O equívoco entre a manutenção da semântica, e a ilusão do poder que impede ver a realidade da mudança, foi logo evidente na constituição do Conselho de Segurança da ONU onde o veto se encontra atribuído a Estados que perderam a capacidade de enfrentar o cisne negro que é o globalismo. Até hoje não parece ser acolhida a evidência de que não ganharam a última guerra mundial, e que se limitaram a não a perder. Mas seguramente perderam a posse e unidade de capacidades da soberania clássica, isto é, a posse simultânea do poder militar, do poder financeiro, do poder científico e técnico, e com eles a hegemonia que coletivamente lhes garantia por algum tempo a supremacia mundial em coligação imperial. Podem identificar-se esforços para recuperar esse pressuposto da antiga soberania, designadamente no processo conhecido dos EUA, mas a prudência também é evidente com a transparente atenção às experiências do Iraque e do Afeganistão. O grande problema é o que foi chamado de adaptação ao contexto, não sendo um exercício verbal distinguir e usar o chamado soft power, ou sua utilização eventual, como defenderam os chamados liberais de esquerda, uma atitude que em vários aspetos parece, com dúvidas da oposição, ser a dominante na intervenção do Presidente Obama, que ao sentar-se na Sala Oval encontra progressivamente uma realidade diferente do que sonhava, sem com isto afetar a autenticidade das suas convicções. Mas acontece, para mal de muitos povos que se encontram perante crescente dificuldade de prever o seu futuro, com a intervenção da Rússia, de que apenas se conhecem as primeiras inquietantes manifestações, e, segundo a regra comprovada pela experiência dolorosa, sem ela própria ser capaz de alinhar o consequencialismo do que decidiu adotar como conceito estratégico nacional. Uma primeira evidência é que adotou, como principio de governo, e atitude perante a complexidade da desordem internacional, o conceito clássico da soberania, da hierarquia medida pelo poder militar, esquecendo a experiência dos que olham prudentemente para a degradação do hard power que possuíram, e para a evolução, recorrendo, e não com segurança, à metodologia das sanções, que não são mensagem facilmente inteligível pelos que, dispensando-se de avaliar o ambiente, consideram apenas a capacidade ocasional do Estado que não atende a severidade da reprovação pela opinião pública mundial, e que o seriam seriamente pela ordem jurídica se os factos também a esta não lhe tivessem atingido a autoridade.

A Rússia não está apenas a concretizar a fusão do que considera a sua fronteira de interesses como o que pretende que seja a sua fronteira geográfica, num jogo em que se apresenta como sendo do forte contra o fraco. Está a desafiar uma desordem mundial que outros tentam reorganizar com justiça e concordância, um jogo em que existem poucas certezas. Entre elas a de distinguir quem ganha ou quem, na melhor das hipóteses, apenas não perde, e sobretudo, a dimensão do desastre humano que vai mais uma vez atingir os inocentes. Este é o preço mais grave do equívoco.