O Predilecto….

Vindo de Alfândega da Fé, descendo a caminho dos Cerejais, chega-se a ela facilmente, sempre em frente. A aldeia é arejada, enxerga-se bem quando no topo do Sardão ali bem perto da Parada. Para trás ficou a nova ponte da Ribeira de Zacarias, em serena curva sobre um fenomenal espelho de água, reflector dos verdes multicores que por aqui habitam. Encravada num morro a que os antigos designaram como Rebentão, vislumbra-se construção de xisto, castanho doirado, o xisto que a natureza espalhou por estas bandas. Só olhos treinados a detectam pois esconde-se atrás de zimbros, giestas, carrascos e, na vertente, guardam-na as nossas amigas amendoeiras e oliveiras. O caminho a que a ela leva é subida calma porque espraiada em curvas e contracurvas de suaves inclinações. As silvas, soberbas, bordejam as bermas, agarram as paredes que atrás delas se escondem. O professor Humberto entrincheirou-se, diz que daqui só sai, direito e sem querer, sem ser de sua vontade. A casa é soberba, bem pensada, quem a mandou construir seria gente de posses, seus pais foram senhores abastados. Varanda em telheiro domina o vale, a praça e Igreja estão ali mesmo, perto do nariz, e o cemitério mais acima, quase no cume.
Lá ao fundo está a preocupação de Humberto, desde que colocou a mão na cabeça do Joaquim, num baptizado que jamais esquecerá. Foi professor dos dois rebentos da Maria e do António, a Isabel, mais nova, e o afilhado. A rapariga, mimada e frágil, foi ajudada, empurrada para o futuro. Zarpou para Lisboa, é médica e foi sempre os olhos dos pais, o centro do mundo. Mataram-se os três enquanto ela crescia, sempre ausente da aldeia, renegando as origens, aqui, por detrás dos montes. O Joaquim, malfadado, foi moço, criado, jornaleiro sem jorna. Dormia, sempre dormiu e ainda dorme num quarto virado para o barraco dos porcos que há muito abalaram.
Joaquim está só, seus pais estão lá em cima, perto do professor Humberto num lugar que Deus tem. Os terrenos, onde enterrou os verdes anos, calharam á irmã que imediatamente os vendeu. Ele ficou com o velho casebre e o chão que o rodeia. Ali perto, mesmo na ponta e por baixo de frondoso e ancestral negrilho está a angústia do professor Humberto, causador de insónias, origem das voltas e reviravoltas em cama que se queixa, que geme por simpatia. O poço, bíblico, é fundo e bom apanhador de águas.
Joaquim, o afilhado, foi seu aluno, bom rapaz, tímido e angustiado perdeu-se por Natália que abalou um dia para França com rapaz de aldeia próxima. Os amores bateram-lhe várias vezes à porta mas o coração de Joaquim há muito que não batia, por ausência de energias, pela negação dos afagos de crescimento.
Chegou o dia, mais que previsto pelo velho professor Humberto, enredado entre nuvens escuras e chuva forte e fria. Os bombeiros e a Guarda Republicana, chamados por vizinho amigo, remexiam no poço de mau augúrio.
Lá, na Lisboa sem fundo, sem culpas, fruto de afagos desiguais, ausente e alheada, vive ela, o outro filho, O Predilecto…