O Presépio da Sé

De um dia para o outro, no fundo da nave, nascia o Presépio, na modesta Sé, a nossa, de Bragança. Feito em declive, no cimo uma marulha a resguardar o palácio de não sei quem, poderoso, talvez do débil Herodes o mandante da execução de S. João Batista, depois apareciam anjos, querubins, pastores e rebanhos a esmo, no carreiro mais elevado os Reis Magos e magros, no horizonte a estrela azul e dourada e mais anjos.
No centro o Menino nas palhas deitado, em posição ligeiramente cimeira, vestidos singelamente a Virgem Maria e São José, rente a Ele a vaquinha e o burrinho cujos bafos O aqueciam. Não me lembro da existência da manjedoura.
Musgo, areia, figuras de barro de várias tonalidades, músicos e cantores concediam ao presépio cromatismos diferentes no gasto das horas do dia.
Os meninos animadores das friorentas missas matutinas contemplavam as colorações marcadas pela luz mortiça das lâmpadas, os frequentadores de outras missas nem concederiam grande atenção à representação, pela tarde fora a luz exterior e a do interior quase iguais, bruxuleando, conferiam ao Presépio filamentos iluminantes a convidarem à interpretação inchada de alacridade.
 A fim de não cometer injustiças de esquecimento não nomeio os meus comparsas de observação, ficávamos empapados a observar os olhares ternos, azuis, tranquilos do Menino, os salientes, solenes, temperados, bovinos, da vaquinha, os do burrinho pareciam-nos marotos, demonstrativos de ser burrinho mas não burro.
A exaltação da vaquinha e do burrinho por vezes suscitava a elevação das vozes, as senhoras também frequentadoras de todos os dias enviavam olhares furiosos, às vezes chegavam aos progenitores que registavam a nossa presença na Sé, ou não fossem amigos e admiradores do, na altura, Padre Luís Ruivo. O Sr. Machado era o primeiro a agir.
O sacristão senhor Machado, ante a nossa vozearia e demora na observação passava vagaroso, uma, duas vezes, fungava, depois exortava-nos a circular porque ele conhecia-nos, tal como aos nossos pais.
Também eu guardo visões de centenas de presépios, de todo o género, do Mestre do Paraíso, do Mestre de S. Bento, de Josefa de Óbidos, da Adoração dos Pastores de Pedro Alexandrino, de outra interpretação, a de Domingos António Sequeira, entre outros e, Gregário Lopes, e os renomados de Machão de Castro. No entanto, o Presépio da Sé no meu inventário de presépios apenas tem um competidor, silvestre de Lagarelhos, este último remanescente do pensado por S. Francisco de Assis.
Boas Festas.