O professor do ano

O Diário de Notícias, um dos mais antigos jornais da capital, e que conta na longa história dos seus colaboradores muitos nomes do património cultural português, desenvolveu com êxito um projeto destinado a destacar a importância do professorado que assegura, com dedicação, humildade, saber, e competência, a entrada da juventude na escola, iniciando o longo trajeto que é a educação. Além dos professores que foram nomeados cada mês, foi escolhido como professor do ano Juan Nolasco que dá aulas na EBS de Santa Maria, nos Açores, engenheiro eletrónico de formação, e que entre uma carreira internacional financeira e intelectualmente recompensadora, preferiu dedicar-se à Escola Básica e Secundária de Santa Maria. É justo lembrar o diretor do Diário de Notícias, João Marcelino, que foi o mentor da iniciativa, e os depoimentos de cada um dos premiados, todos exemplarmente dedicados ao ensino.
Durante a cerimónia recordei a minha pequena aldeia transmontana de origem, que já teve duas escolas, e hoje não tem nenhuma em funcionamento, o que me levou a alinhavar estes comentários sobre a evolução de que estamos a sofrer os resultados não previstos, e talvez ausentes de qualquer tentativa eficaz de programação de controlo. Por aqueles tempos, de enorme analfabetismo, e de vida pobre, a integração na comunidade nacional estava confiada à responsabilidade de pelo menos três entidades, a Igreja, o Serviço Militar Obrigatório, e o aparelho de ensino. Este último tinha no professor primário uma figura de referência que marcava para sempre a minoria que, dispensada do trabalho dos campos, conseguia levar até ao exame final, e que a recordaria ao longo da vida.
A Igreja defendia a coesão dependente dos valores, e os párocos não tinham ainda sofrido o encargo das muitas freguesias, ao mesmo tempo que a diminuição das vocações, e alteração da relação entre o Estado e a Igreja, também se projetariam no enfraquecimento dessa herança e contribuição. Finalmente, o serviço militar obrigatório, em resultado de uma evolução ocidental abrangente, foi extinto, e com essa extinção veio o desaparecimento da sua função complementar de integração social, que incluía contribuir para a alfabetização dos mancebos, e para a sua profissionalização durante o tempo de formação nas fileiras.
No decurso dessa evolução, desaparecidos os suportes convergentes da integração social, e enfraquecidas as famílias que confiavam nas instituições, não parece desculpável que não se considere que o aparelho educativo ficou, só e enfraquecido, no desempenho da sua função, e que necessita menos de reformas do que de reforço, apoio, e agradecimento.