O QUARTO CAVALEIRO DO APOCALIPSE

“Olhei e vi um cavalo esverdeado; o que o montava tinha por nome Peste; seguia-o Hades. Foi-lhe dado poder sobre a quarta parte da terra, para fazer perecer pela espada, pela fome, pela peste e pelas feras da terra.” Ap 6:7
 
Leif Wenar professor da cadeira de Filosofia e Direito no King’s College em Londres escreveu recentemente um excelente artigo no New York Times demonstrando que o mundo em que vivemos não é tão bom como poderia ser mas, em contrapartida, é bem melhor que o que, ainda recentemente, era. E para o provar descreve vários quadros da história recente para demonstrar os vários avanços realizados nos últimos anos, sem esquecer as faltas e os desafios. Nunca tão poucas mulheres morreram de parto e a má nutrição das crianças atingiu o nível mais baixo, de que há memória. Apesar de continuar exagerado, o nível de pobreza extrema desceu de 43 para 21 por cento, nos últimos vinte anos. O ambiente tem hoje uma importância nunca atingida no passado mas as alterações climáticas continuam a ser uma das grandes preocupações a par da sobrepopulação e da escassez de recursos.
O mundo alberga vários conflitos regionais, sangrentos e desumanos, mas em nada comparáveis à morte e destruição causadas pelas duas Guerras Mundiais do século passado.
Contudo o exemplo que mais me impressionou, que está, de alguma forma alinhado com a minha crónica anterior, que está na origem do título desta e que Wenar relata com alguma minúcia, refere-se à Grande Peste Londrina de 1665, a maior desde a Peste Negra que assolou a Europa no  século XIV.
Samuel Pepys registou no seu célebre diário que numa semana registou perto de 7.500 mortes mas provavelmente o número real de vítimas rondaria os 10.000.
Os londrinos repararam que ao mesmo tempo que as mortes aumentavam, as ruas iam ficando com cada vez  mais lixo e abundavam cães e gatos por todo o lado. Perante isto o Mayor mandou abatê-los. Foram eliminados mais de 4.000 animais. Acontecia que, naquela altura, eram precisamente os cães e, sobretudo, os gatos que davam caça aos ratos, os verdadeiros transmissores do agente infeccioso, a bactéria Yersinia Pestis. Acabou por ser o grande incêndio de Londres, em 1666, que acabou por eliminar os focos da infeção e pôr côbro à mortífera epidemia.
Na contemporaneidade nada disto é possível, fruto do conhecimento que hoje temos dos mecanismos infeciosos e dos fenómenos epidemiológicos.
O risco das epidemias e mesmo das pandemias já não está no uso de inadequados procedimentos mas na globalização. Os agentes  infeciosos são dissiminados a uma velocidade superior à sua prevenção e cura, por causa da globalização das viagens, dos intercâmbios e das trocas mundiais de bens e mercadorias. As ameaças não estarão na forma como exterminamos ratos e pulgas mas na capacidade e velocidade com que possamos cancelar voos e bloquear transferências comerciais.
Para concluir o professor britânico afirma, em jeito de metáfora, que o quarto cavaleiro do Apocalipse desmontou do cavalo esverdeado e agora viaja de avião!