O Senhor Abade

Dentro das baias do paradigma oficial iniciaram-se as comemorações do século e meio do nascimento de Francisco Manuel Alves, sobejamente conhecido como Abade de Baçal. Eu gostaria de ouvir e ler palavras sobre o estrénuo estudioso de calhaus, pedras e toda a sorte de documentos, fora da caixa da burocracia cultural rica em folhos de seda e fitas de veludo, onde foi colocado e afastado dos móbeis do seu povo que tanto amou e exaltou. Porque tive a sorte de ouvir o seu dilecto sobrinho Barnabé Alves, o Senhor Zezinho Montanha e o meu progenitor relatarem episódios de variado cariz referentes ao émulo de Fernão Lopes no sentido amplo da descrição do viver e entendimento dos transmontanos do passado e do dele presente, vejo-o sempre ataviado ao modo dos conterrâneos, a viver alegrias e contrariedades domésticas dos seus fiéis, distante do envernizamento com que os líteras da sua obra o apresentam. A visão escorada no ouvido plasmou-se após ler uma comunicação do Nobel Egas Moniz sobre o vasculhador das nossas raízes, e encontrado no Museu, a quem deu miolo e côdea, um livro de assentos de capas verdes em cujo frontispício está escrito: Vida Económica de Francisco Manuel Alves – Reitor de Baçal 1893-1913, Biografia do Autor. Tal livro – encantador livrinho – insere de modo muito nítido os passos em volta e de cá para lá e versa do Homem no que tange às posições e contraposições nos círculos onde se movia. O apego à família, os trabalhos e arrelias enquanto pequeno proprietário e estudioso das práticas agrícolas, o afã respeitador dos prazos no pagamento de empréstimos, o escrúpulo no cumprimento do múnus sacerdotal sem mesuras balofas e escorado nas práticas dos que levavam vidas exemplares, a argúcia e manha na esfera política, a vida social, os queixumes ante a ruína do corpo são pontos e vírgulas de uma gramática existencial ali registada. Não esquece, para minha total satisfação, o registo de prazeres gulosos retirados de sápidas comidas, baforadas de charutos e goles de conhaque nos momentos de convivialidade em locandas e tabernas afamadas pelas boas pitanças, caso da célebre Maria do Rasgão, sagaz Mestra cozinheira estabelecida na Rua Alexandre Herculano. A falta de espaço e o propósito de não ofender o mandarinato sisudo leva-me a suster o ímpeto de continuar a lembrar anotações estrídulas, cómicas, irónicas, agudas no comentário que recheiam o escorço auto-biográfico. Aos anatomistas solicito, apenas, o favor de discorrem no tocante ao estilo literário do Erudito, e porque estamos a festejar o 25 de Abril alvitrem qual seria o seu posicionamento político neste tempo de agora. Obrigado