O Seu a Seu Dono

Na edição n.º 3468 deste jornal, de 10/04/2014, assinei um texto titulado “Sobre o Clube Académico de Bragança”, com o duplo propósito de, por um lado, relevar a importância desta instituição que, no contexto do amadorismo, mais do que qualquer outra, tem dignificado e projectado a cidade e o concelho de Bragança; por outro, prestar uma pequena homenagem ao então presidente cessante, Fernando Gomes, pelo trabalho meritório à frente deste símbolo da cidade e, simultaneamente, para lhe demonstrar a minha solidariedade por empreender a aventura de abandonar o seu país, pelas razões que todos conhecemos.
Recentemente, acerca do tema em apreço, um amigo e distinto leitor do Mensageiro, chamou-me à atenção para o facto de ter sido injusto para com o mais carismático e influente dos presidentes do Académico, Dr. Manuel Pereira, por não referir o seu nome nesse artigo, excluindo-o da “galeria dos notáveis”.
Não tendo, pois, naquelas circunstâncias, dado o merecido “palco” ao Dr. Manuel Pereira, em jeito de remissão – confesso que, no momento, não me apercebi da injustiça -, cumpre-me actualizar, em favor do meu ex professor  de Educação Física no memorável Ciclo Preparatório Augusto Moreno, o velho ditado português “o seu a seu dono”, partindo do sábio princípio de que os bons exemplos, os de ontem e os de hoje, não se anulam uns aos outros, antes coabitam harmoniosamente.
O Dr. Manuel Pereira, insigne e avisado colaborador deste jornal, é uma pessoa de trato fino, com quem simpatizo e mantenho uma relação cordial. Uma condição que, além de confortável, me dá a satisfação de o obsequiar pela importante obra deixada, enquanto presidente do Clube Académico de Bragança, de cujas sementes por ele lançadas outros souberam colher os frutos.
Ainda que de forma implícita, quando, no dito artigo, escrevi “…sendo o hóquei em patins a modalidade mais representativa, uma imagem de marca que teve o seu período áureo nas décadas de 80/90, de tal maneira importante, que dali saíram vários jogadores para representar quer a selecção das quinas, quer alguns dos mais prestigiados clubes nacionais…”, e que “…o Clube Académico de Bragança nunca perdeu a sua identidade. Uma realidade que se explica pelo facto de quem o tem servido o faz com total desprendimento, com abnegação…”, estava a referir o nome do Dr. Manuel Pereira.
No meu entendimento – que, julgo, será partilhado pela generalidade dos bragançanos -, Manuel Pereira está indelevelmente associado ao Clube Académico de Bragança, numa relação em que o homem se confunde com a obra; ao ponto de ser possível considerar o primeiro um epíteto do segundo, se essa fosse uma hipótese contemplada numa grelha de palavras cruzadas, numa espécie de relação sinonímica.
Sensível à observação do leitor que me chamou à atenção para a tal injustiça, o mínimo que podia fazer (se bem que a memória colectiva não é necessariamente o reconhecimento da obra vertida no papel, mas bem mais profundo do que isso), e porque o sentimento de ingratidão está longe de ser um traço da minha personalidade, era tentar remediar o lapso cometido inconscientemente.
Se o conseguir, ficarei bem com a minha consciência e, claro, reconfortantemente aliviado pela leveza de espírito.