O tempo da grande política

Nos dias de hoje a atividade política é uma tarefa complexa e difícil, por várias razões.  
Estamos num tempo onde impera a desconfiança. Desconfiança nas instituições, nos mercados, e nos agentes políticos.  
A opacidade é grande. Há falta de transparência. Acontece nos sistemas financeiros, nos grandes negócios em que intervêm os poderes públicos, nas relações entre Estado e cidadãos e no sistema judiciário.
Há uma grande imprevisibilidade, o que não acontecia desde a última guerra mundial, a ponto de se poder afirmar que a incerteza é, no tempo de hoje, a maior certeza.  
Aumentam cada vez mais as interdependências, sejam elas de mercados, de sistemas financeiros ou de processos de produção. Vivemos um tempo em que tudo influencia tudo.
Um tempo em que somos obrigados a conviver com múltiplas crises, sendo as mais próximas de nós, primeiro, a crise da zona euro – essa sentimo-la a todas as horas - e outra, embora também muito perto, com características diferentes mas com um potencial muito inquietante, tem a ver com a instabilidade política e social da bacia do mediterrâneo, de que as imagens que a televisão recentemente nos mostrou do sul de Itália, na ilha de Lampedusa, com centenas de homens, mulheres e crianças mortos quando tentavam uma vida melhor na Europa.
Vivemos um tempo ainda onde predomina o efémero e o superficial, o que tem conduzido a que as políticas públicas sejam geridas para o momento, para o telejornal do dia. Assim se vive um tempo em que não se dá tempo ao tempo.
Um tempo em que a crise é perfeita. Os consumidores não consomem, os bancos não financiam, os investidores não investem, os trabalhadores não têm trabalho.
 Para atacar estes complexos problemas temos de romper com um certa forma de encarar o exercício da política. Costumo dizer que estamos num tempo em que se tem de distinguir a pequena política da grande política. Por pequena política entendo a que consiste em fazer aplicar as regras conhecidas. Acho que o nosso tempo é outro. É o tempo de alterar as regras. É o tempo para uma visão de médio prazo. É o tempo do gradualismo, da estabilidade e da coerência entre políticas. É o tempo de perceber para além das fronteiras. É o tempo dos compromissos. Tenho a convicção que esse tempo está a chegar.
Em próximo artigo tentarei explicar como pode haver uma saída.