O trabalho e a família

S. João Paulo II, na sua Encíclica “Laborem exercens”, número 10, citada por  Julia  Bogado e Porfírio Pinto, no recente livro “Caminhar com João XXIII e João Paulo II”, afirma que “O trabalho constitui o fundamento sobre o qual se edifica a vida familiar, que é um direito fundamental e uma vocação para o homem” (pág. 149).
Situando-se, neste caso,  apenas num dos benefícios do trabalho, o de contribuir para a constituição, organização e o sustento da família, este santo aponta para a importância que advém do valor desta actividade, no plano familiar.
 Não falando já de tantos casais que, por força das actuais circunstâncias, se vêem privados do trabalho, com as mais diversas consequências negativas que tal situação lhes cria, a condição de muitos jovens que aqui se vêem sem trabalho ou sem trabalho digno e, por isso, se sentem obrigados a emigrar para países que lho proporcionam, não deixa de constituir uma mancha indelével num país que deveria pensar, acima de tudo, em encontrar fórmulas para, atempadamente, aplanar os caminhos conducentes à existência desse trabalho.
Adivinha-se, por isso, e compreende-se a angústia de jovens, embora determinados a exercerem o seu labor na terra que os viu nascer e nela constituírem a sua família, criarem e educarem os seus filhos, serem o primeiro pilar da sociedade para que esta não estagne e não morra, adivinha-se e compreende-se, repito, a angústia que os acompanha naquela decisão, por certo totalmente contrária à sua forma de pensar, de planear e programar a sua vida.
Perante este chorado abandono da terra pátria, onde deixaram os seus familiares e amigos - eles e estes vítimas, no mínimo, da saudade -, resta-nos comentar e lamentar, perseverando na convicção de que só com base no trabalho se consegue vencer e alimentar os sonhos que, por falta desse trabalho, fatalmente se desfazem!
Incentivos à constituição de família e à sua fixação, principalmente no interior, bem como à procriação, tem sido a preocupação primeira e louvável de muitos autarcas, os quais, embora com as finanças esgotadas e, quantas vezes, exauridas, não desistem de partir para esses incentivos. Apesar disso, poucos são os casais que os aceitam, pois que não são eles tão aliciantes e, sobretudo, tão duradouros que inspirem a verdadeira esperança na qualidade de vida no futuro - postos à disposição, na maior parte dos casos, sem o devido oferecimento do trabalho que suporta as necessidades de hoje e de sempre da família.
Encontrando-nos, pois,  lamentavelmente, na situação acima exposta, já agora, como é que os nossos representantes que tão confiadamente elegemos e nos quais, por isso, depositámos toda a confiança foram  constrangidos, queremos crer, a consentir no que aconteceu ao Portugal dos “Heróis do Mar”?
Mas, antes de no-lo dizerem, sem duvidar da palavra de quem no-lo disser, não posso deixar de transcrever mais uma citação no acima referido livro, a páginas 113, desta vez, de S. João XXIII: “Praticar a verdade: ela é a luz em que toda a pessoa deve mergulhar e aquilo que dá valor a cada uma das acções da vida”.