O Túnel

Antes de encetar esta crónica li alguns poemas de Fiama, poetisa maior, escorados nos seus relances pontilhados a estile sobre o extraordinário poeta do Marão, autor de Marânus, o qual devia ser lido e comentado, a sério, em todas as Escolas transmontanas. Trata-se do grande visionário Teixeira de Pascoaes, também autor do inebriante Regresso ao Paraíso. Os transmontanos são muito ciosos das suas joias, de tal forma que as escondem. Ora, Pascoaes é uma fascinante pedra preciosa.
Teço estas considerações sem ter a mínima esperança de eco (os ecos nas montanhas motivam os pastores, os poetas e os profetas), no entanto, não podia escrever sobre o furado do Marão sem homenagear o ínclito poeta, lendo-o. Acresci Fiama. As causas estão na sua opulenta Obra Breve (existe nas Bibliotecas). Julgo eu.
Histórias muito ou puco fantasiadas relativas ao Marão além de estarem plasmadas em livros de valor desigual, também foram e são veiculadas por todos quantos fizeram as voltas e voltinhas ao seu redor, o miolo de tais contas/contos insere assaltos, bandidos, aparições fantasmagóricas, lobos, estranhos pedidos de boleias, refeições, amorios e outras coisas que tais. O Marão dava pano para tudo!
Habituei-me ao Marão desde os dezoito anos, o Lídio Correia e o Benigno Ramos foram comparsas ridentes e estridentes de atravessamentos domarão em busca refrigério da paixão, posteriormente outras viagens, de preferência parando na pastelaria Gomes em Vila Real ou na delicada Lai-Lai na terra de S. Gonçalo.
E agora? Agora o ogre foi esventrado, trespassado, dinamitado, passamos a poder vislumbrar-lhe as entranhas ao sabor da velocidade permitida, em segurança, poupando nervos, pés e calços de travões. Acima de tudo, vidas. Todos quantos criticam os gastos fingem esquecer a poupança de vidas. Mesmo que só fosse uma. Podia ser a de Teixeira de Pascoaes.
As considerações relativas à economia, ao desenvolvimento, ao desencravamento da Região deixo-as ao cuidado da multidão de especialistas, prefiro sublinhar os pontos focais dos activos plasmados pelas duas culturas, se por um lado podem e devem passar à condição de estrelas fulgurantes, por outro correm riscos acrescidos de queda no alçapão da obscuridade cuja causa se radica no ofuscamento derivado das luzes da ribalta escoradas no efémero, no reluzimento enganador de gente confiante, para não dizer crédula.
A técnica deu expressão à ciência, o túnel é melhoramento de tomo, expansivo (para o bem e para o mal), de aproximação das regiões, o panegírico favorável à regionalização vai aumentar, os de lá de lá do Marão têm de saber aproveitar as sinergias decorrentes da execução desta importante obra de engenharia. Senão, não.
Faço conta de atravessar o túnel dentro de dias, não espero encontrar pepitas de ouro ou de volfrâmio, espero isso sim fazer a viagem rápida e comodamente até à terra do Braganção. A Vila é estimável, Real sem dúvida, Bragança é a cidade que deu nome a uma dinastia. Não sou chauvinista, sou de Bragança com costados de Vinhais. Desculpem os que não são!