O Verão

Pediram-me um texto sobre o Verão para publicação na revista bilingue INTER. Satisfeito o pedido, fiquei insatisfeito porque julgo não ter salientado os lados menos visíveis ou dando a ver/ler o escondido nas rugas e folhos da estação calmosa.
No Verão aligeiramos as roupas, alguns passam a usar sandálias pouco lhe importando se as unhas dos pés exibem negros pigmentos de luto, legiões de visitantes invadem as cidades, caminhantes pisam veredas e sobem montanhas, emigrantes/imigrantes regressam no afã de regarem as raízes, há festas e bailações. Assim é, todos os anos, dirá o leitor.
Acredito que nas aldeias os resistentes na sua peculiar linguagem expliquem aos acabados de chegar tudo quanto mudou no período da sua ausência, quantos nasceram (?), quantos morreram, como se fossem contabilistas da vida de cada comunidade. E nas cidades?
Nas cidades, em Bragança, o caso muda de figura, a compostagem social é diferente – turistas curiosos, gastro turistas, viandantes à procura do insólito, peregrinos da saudade de vários tons e sons, filhos pródigos sem pais – muitos acossados pela brevitas do tempo porque se quer ver, olhar, comer e fotografar tudo e tudo enquanto numa carreira sempre cansada. E, levando em conta a capacidade expansiva das localidades concorrentes cujas rápidas acessibilidades aumenta o desejo de «provar» acções centradas no outro lado da fronteira. Fica tão perto!
 Quem explica a cidade? Quem explica onde fica e o significado da porta da traição? Quem explica a história oculta? Quem explica episódios e figuras que só por si prendem a tenção dos caçadores de feitos insólitos?
Sim. É, verdade. Os programas de animação debaixo do signo do Estio proliferam a eito num engaiolamento mimético, a sua extrema previsibilidade só provoca excitações aos fiéis de sempre e amantes do mata-tempo, tal como antigamente havia foliões e dançarinos corajosos que não perdiam uma festa, um baile. Não o nomeio, só o lembro, como figura singular no não perder um baile festivo, sempre impecável, chapéu na cabeça, mesmo cinquentão cumpria com fervor o calendário das festas, provocando a inveja aos mais novos.
A panóplia tecnológica detém imenso poder, no entanto, no referente a conteúdos explicativos das cidades está dependente de quem os concebe, é neste importante pormenor que se distinguem os burgos, uns têm o engenho do pouco fazerem muito, outros não conseguem potenciarem as suas riquezas.
O grande festeiro acima referido não possuía carro, os transportes colectivos eram precários, o parque automóvel ainda mais, apesar de tais desfavores o dançarino ensaiava um salto mortal por cimas deles, caindo de pé sem quebrar o vinco às calças no centro do baile agarrando de imediato a primeira mão feminina ao seu alcance. Ora, socorro-me da sua figura para sublinhar quão ingente se torna existirem nas cidades e vilas nordestinas dançarinos, quero dizer explicadores capazes de suscitarem o desejo de permanência, pelo menos um dia, de todos quantos as visitam. O Verão tem dias compridos, dispensa abafos, estimula os cinco sentidos