Os afrancesados

Sentei-me numa esplanada da vila, na ânsia de me dessedentar, após uma jornada áspera, em dia de sol abrasador. Bem perto, três cidadãos para lá da meia idade falavam francês entre si. Todos portugueses.
Se algo de marcante possui a cultura de uma nação, esse algo é a língua, porventura o traço de riqueza maior e imagem de marca da cidadania. Não me cai bem, por isso mesmo, que indivíduos anónimos, no país de origem e de pertença, se distraiam por passeios em redor da língua usada e falada no país de acolhimento. O fenómeno migrante conduz, inexoravelmente, a que os deslocados agucem o engenho na prática da língua do país hospedeiro. Porém, enquanto nele permanecem, porque, regressados, ainda que temporariamente, ao solo pátrio, parece-me que deva ser a língua de origem a praticada. Porquê de outra maneira? No caso, atentas as circunstâncias, somente uma circunstância vislumbro para que as três pessoas atirassem às urtigas a fala distintiva da sua cultura para devaneios em torno de outra: exibicionismo. Se dantes determinados afrancesados faziam gala de o serem por via da língua falada em férias e pelos maços de francos exibidos no momento de qualquer compra a fazer, hoje, mergulhados na moeda única, parece restar-lhes a língua como sinal de distinção. Variegadas vezes, uma distinção bem negativa. Porque, se já o gesto é de tão mau gosto, o francês articulado também não prima pelo melhor rigor, mormente quando se trata de emigrantes de primeira geração. E, ao ser assim, aquilo que se pretendia significasse sinal de diferença, acaba por ser marca de ridículo.
Quando partiram, fizeram-no, por norma, em busca de melhores condições para ganharem a vida, o que é demonstrativo de coragem e de inteligência. Viveram, muitos deles, situações penosas enquanto a vida não lhes começou a sorrir. Merecem, por isso, o nosso respeito mais profundo. Regressam à terra natal tantas quantas as vezes que o podem fazer ao longo do ano, porque aí deixaram familiares, porque a saudade os impele. No mínimo, sentem orgulho das terras que os viram nascer. Por que falam, então uma língua que, em bom rigor, não é a sua, ou, pelo menos, não é a língua da cultura de pertença, a língua da cultura de origem? Certamente, não por gratidão ao país de acolhimento, porque esse sentimento deve ser revelado no solo respectivo. Não por revolta para com o país que não lhes garantia condições de vida digna; se assim fosse, não manteriam acesa a chama da saudade. Se partiram mais tristes que os tristes, humilhados, para o desconhecido lá longe, e venceram, adquirindo, por mérito próprio e que ninguém ousa retirar-lhes, um estatuto novo, financeiro e económico, suportado no sacrifício, no trabalho e na poupança, eis uma boa razão, e acrescida, para, em solo português, falarem a língua que consigo transportaram e, por certo, ainda não esqueceram. Eles não foram em busca de uma nova língua, porém de vidas melhores...
Escrevo segundo a antiga ortografia.