Os antónimos e os antípodas

Diz a gíria popular que a mudança dos tempos arrasta consigo a mudança das vontades e das virtudes. Acrescentarei que se substituem os valores, as atitudes, os comportamentos e as condutas, as normas e as regras, os usos e os costumes, formas de ser, de pensar e de estar. Erradamente, em nome de progressos civilizacionais que, da minha parte, longe de sonhos e utopias, encaro como retrocesso de gravidade maior, perdas irreversíveis para as comunidades e as sociedades. A criança tem razão, porque o rei vai nú. Família, escola e comunidade entreajudavam-se em comunhão de esforços, no sentido do melhor crescimento de cada um. A família socializava suportando-se em valores ancestrais que ninguém de bom senso colocava em causa. A escola complementava essa tarefa, assumindo ainda o colmatar de eventuais fragilidades a esse nível registadas nas crianças. A comunidade recebia os saídos da escolaridade, proporcionando-lhes oportunidades de sucesso na vida e de continuação do processo educativo a prosseguir vida fora. A família desvirtuou-se na sua marca de célula mais importante do tecido social, ora se desagregando, ora entrando em rápida decadência por força da decadência dos pilares que faziam a sua razão de ser enquanto a mais valiosa instituição humana. Como se não bastante a separação do casal, também a não rara teimosia persistente de um progenitor pretender divorciar os filhos do outro progenitor. A comunidade converteu-se em arena de conflitos permanentes, onde imperam o individualismo e a disputa de primazias, à cata dos melhores fins à custa dos piores meios. Resta a escola, incapaz de substituir o insubstituível.
Durante uma geração atravessámos facilmente o rio da vida, de uma margem à outra margem, e nem sequer se tornou imprescindível que todos soubéssemos nadar. Da segurança respirada, à insegurança inspirada; do rigor à falta dele; da cordialidade à arrogância; do calor humano à frieza nas relações. Da ajuda, colaboração e cooperação à competitividade desenfreada foi um pequeno passo. Assim como facilmente se passou da entreajuda e solidariedade à inveja hipócrita, do espiritual ao meramente material, da prevalência do ser ao primado do ter, do altruísmo ao egoísmo e à ganância, do respeito pelo outro ao seu atropelo, do amor ao ódio. Conheciam-se limites e respeitavam-se estatutos e hierarquias, e rapidamente se perdeu a noção de fronteiras e de respeito, se bem que, vezes sem conta, pela ausência de critérios sérios na atribuição de estatutos e de patamares hierárquicos.
Recuperam-se e enumeram-se exaustivamente eventuais erros do passado, sem que ninguém tenha em conta que a História tem que ser lida contextualizada no seu tempo, e nunca dele desgarrada. Realmente, é usual ler-se o passado à luz do tempo presente, sem se ter em atenção que outros nos lerão no futuro à luz desse mesmo futuro. Ainda assim, li há pouco que não se podia falar, mas, quando se falava, era-se respondido; hoje pode-se falar, mas, quando se fala, ninguém responde. Menos preocupado com o passado, bem mais me preocupam o presente e os reflexos que dele se incrustarão, de modo inexorável e indelével, nas malhas do futuro. Do futuro daqueles que já se perfilam atrás de nós para nos substituírem.