Os Candidatos Fora dos Partidos

No dia em que o cidadão Henrique Neto, deputado à Assembleia da República pelo Partido Socialista, entre 1995 e 1999, assumiu publicamente a candidatura às eleições presidenciais de 2016, algumas figuras proeminentes do partido da rosa, nomeadamente Augusto Santos Silva e José Lello, reagiram áspera e grosseiramente à inesperada “insolência” do seu camarada.
Numa outra ocasião, a propósito da descrença dos cidadãos nos partidos políticos, fiz questão de afirmar que era impossível haver Democracia sem eles. Hoje, um pouco mais descrente (ou menos ingénuo), e ainda que, teoricamente, seja impossível conceber o regime de outra forma, concedo que esse mesmo regime tornar-se-ia cívica e moralmente mais credível, sem o “contributo” dos santos silva e dos lellos deste país.
Quando, por exemplo, sobre o assunto em apreço, o jornal Observador revelou o estado de espírito de uma certa facção socialista, titulando “Socialistas preocupados com candidatura de Henrique Neto”, essa preocupação não é por causa do futuro do país nem dos cidadãos: a inquietude tem a ver com o facto do empresário leiriense, com a folha limpa, representar o oposto daquilo que de mais reprovável há na política – cujos responsáveis (por acção ou omissão), sentindo-se ameaçados, reagiram desabridamente.
Como não podia deixar de ser, o tema mereceu os “sábios” e “avisados” comentários dos opinadores encartados de sempre. Da opinião produzida, há um ponto que reúne consenso relativamente aos predicados do proponente: Henrique Neto é um respeitável homem de negócios, escrupuloso, sério, honesto, frugal, com um passado digno de anti – fascista e um self – made man. Mas, porque (no meio de todo esse virtuosismo) não podia deixar de haver um senão, eis que ao candidato é apontado um “defeito” incompatível com as funções de mais alto magistrado da nação: para além de “não ser apoiado por nenhum partido, não tem experiência parlamentar nem governativa”.
Curiosamente, sempre que, neste país, alguém, de forma frontal, agindo contra a corrente, toma posição sobre a imoralidade deste ou daquele político ou partido, ou seja, pondo o dedo na ferida, ainda que munido da prova factual, é apelidado de demagogo e populista. Uma generalização (não inocente) que conduz à falsa ideia de falta de alternativas e, como consequência, à perpetuação, como se de uma dinastia se tratasse, dos mesmos de sempre no poder.
Pelo que tenho lido e ouvido do concidadão Henrique Neto, é natural que, no actual sistema partidário, a sua candidatura seja incómoda. Como o candidato de Leiria se opõe à chico – espertice e ao malabarismo rasteiro que grassam na política, sendo esses, de uma maneira geral, os principais requisitos para nela se fazer carreira; e que a promiscuidade entre os negócios e a política põe em causa a Democracia e a nobre arte de governar a Polis, estranhar-se-ia não fosse ferozmente atacado.
Não deixando de respeitar quem pensa que os candidatos à cadeira de Belém devem ser indicados pelos partidos, entendo que o mais sensato seria, por uma questão de independência, de imparcialidade e pela especificidade da função (grosso – modo, a garantia do regular funcionamento das instituições), que os mesmos concorressem numa posição supra – partidária.
Estou, portanto, plenamente convencido que só alguém com o perfil e o carácter de Henrique Neto – de preferência, com sangue novo, física e psicologicamente capaz de cumprir dois mandatos - poderá credibilizar e enobrecer a função presidencial. O que seria, talvez, além de representar uma lufada de ar fresco, a forma mais simbólica de celebrar a (nossa) Democracia, acabada de completar o seu 41.º aniversário.