Os Cursos de Cozinha no IEFP de Bragança e o Chef António

Numa sociedade tão preconceituosa quanto a nossa, em que, ainda hoje, “está escrito”, qual sentença lapidar, certas tarefas são exclusivas ou do homem ou da mulher, é inacreditável esta súbita apetência do sexo masculino para a culinária, um comportamento que, pode dizer-se, constitui um dos mais notáveis avanços civilizacionais.
Uma das razões para este fenómeno - contrariando, assim, a retorcida ideia, situada, em termos de mentalidade, no grau zero da tacanhice, de que “ a cozinha é para as mulheres”-, é talvez o grande impacto dos programas de culinária que passam massivamente nas televisões.
No meu caso pessoal, o “chamamento” não foi influenciado pelo show off bigbrotheriano da TV, mas por uma via mais discreta e recomendável: um curso de cozinha no Instituto de Emprego e Formação Profissional de Bragança (IEFP), frequentado durante oito meses em regime pós – laboral; numa experiência única, capaz de transportar quem a vive para um mundo que, pode não parecer, é muito mais do que a mera arte de combinar ingredientes.
Não tenho a certeza se o meu fascínio pela cozinha esteve adormecido durante muitos anos, e, do nada, só agora se revelou. O que posso garantir é que a frequência do referido curso contribuiu para que a minha relação com as panelas se tornasse viciante, porque a mais completa das actividades/hobbies que conheço, pelo capacidade de transmitir as melhores sensações da alma e de, durante o momento da entrega, nos ajudar a suportar as contrariedades que a vida nos coloca.
Tudo isto seria impensável, se desta experiência não fizesse parte uma das melhores e mais consensuais pessoas que eu conheço, por quem, na expressão popular, os males não vêm ao mundo: o Chef António do Rosário, de quem tenho a honra de ser amigo pessoal.
A fama do ambiente extraordinário que caracteriza os cursos leccionados pelo Chef António começou, naturalmente, a despertar a curiosidade de muita gente.
Em pouco mais de dois parágrafos é possível descrever as razões pelas quais aquele clima marca quem teve o privilégio de o testemunhar: frequentado por juízes, advogados, engenheiros, arquitectos, professores, carpinteiros, médicos, psicólogos, enfermeiros, padres, administrativos, empresários, polícias, desempregados, cozinheiros, auxiliares educativos, etc., todos nele estão ao mesmo nível. A reverência, os títulos honoríficos e a posição social dos formandos ficam lá fora. O “tu” carinhoso e informal é a forma de tratamento usada pelo Chef para se dirigir aos “aspirantes” a cozinheiros.
O chef António, como pessoa, é incrivelmente educado, simpático, afável, um verdadeiro gentlemen. Em termos pedagógicos, alia a seu enorme profissionalismo ao profundo conhecimento da matéria, destacando-se pela forma ponderada, calma e paciente como transmite os segredos da cozinha aos aprendizes.
São sensivelmente três horas diárias, duas vezes por semana, que a cozinha se transforma numa atmosfera de rara magia, convívio, partilha e amizade. No fundo, os ingredientes que justificam a extensa lista de espera para o frequentar. Quem o consegue não fica apenas capacitado para surpreender a família e os amigos, nesta ou naquela ocasião, mas com a certeza de se ter valorizado como pessoa e de que os tabus só existem porque a sociedade os alimenta.
             O bom exemplo dos cursos de formação ministrados pelo IEFP (nomeadamente os de culinária, de que falo com propriedade), têm naturalmente o cunho do ex – e do actual director da instituição, respectivamente, o Dr. Fernando Calado e a Dra. Cristina Ribeiro, a quem, como forma de manifestar a minha gratidão, estendo este singelo tributo.